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Artigos Publicados

José Palma semanalmente escreve suas colunas nos principais jornais do interior de SP.

Idealizador do Caminho do Sol, José Palma tem seu nome lembrado sempre que o assunto caminhada vem a tona.

O Caminho do Sol, nasceu com o objetivo maior de oferecer aos amantes de caminhadas, um ambiente agradável, passando em sua quase totalidade , somente por àreas rurais, buscando a introspecção e o despojamento material.

Veja algumas matérias abaixo:

 

 

 

 

 

São Paulo, sábado, 12 de abril de 2014
 
Necessidades acanhadas
 
À medida que avançava em seu caminho sentia que a modéstia passava a ser o principal adorno de seu espírito.
As couraças que o blindavam, aos poucos se desprendiam permitindo-lhe elevar suas asas muito acima do sol e degustar o novo ser que brotava na seqüência dos passos dados.
Situações vivenciadas no início – a pouco mais de uma semana – que soavam como o grotesco levado a sério, agora pareciam naturais – uma nova maneira de perceber, de sentir e de enxergar a vida.
Necessidades essenciais como tomar água, respirar, fazer xixi, escovar os dentes, pentear o cabelo, comer uma fruta, fazer uma refeição, passaram a ser valorizadas – saboreadas, curtidas e levadas a sério.
Gestos como dar um sorriso, permitir que uma lágrima possa rolar face abaixo, dar ou receber um abraço, pedir ou fazer um favor, viver a constância do afeto – passaram a ser atitudes inerentes à rotina do seu dia a dia.
Necessidades antes acanhadas porque disseram que assim deveriam ser – romperam os alforjes de uma memória inconsciente e formatada.
Do eu somente eu, do olhar para o próprio umbigo – único e soberano a guiar sua vida, do egocentrismo, da individualidade, do primeiro “eu” depois “eu” o fizeram enxergar claramente a grossa e tênue linha que define os limites entre a loucura e a bem aventurança – entre o “eu” e o “nós”.
Entre o rir de alguém e o rir com alguém.
A entender o oceano de diferenças entre o “fazer para o outro” e “fazer pelo outro”.
Chegou mesmo a duvidar se estava ampliando o território da loucura, ou se havia descoberto o universo da razão.
Ficou com a segunda, porque enxergou nas setas do caminho uma frase de Machado de Assis: “a razão é o perfeito equilíbrio de todas as nossas faculdades”.
Durante nosso café com prosa – geralmente digo aos iniciantes que a vieira é o símbolo dos peregrinos e explico o “por que”.
Uma explicação longa – reza o bom juízo resguardar os limites da paciência do prezado leitor e “ad cautela” reduzi-la a poucas linhas.
Antigamente os peregrinos tinham o hábito de usá-la (a vieira) junto ao vestuário - atualmente a usam pendurada no peito ou presa atrás da mochila.
Seu formato côncavo, em forma de uma concha – assemelha-se ao gesto da mão que pede – mão provida da humildade para pedir e da humildade que se deve ter para receber.
Seu formato permitia que os antigos a utilizassem também para beber água, tomar um caldo, pegar o alimento e sua frente serrilhada lhes permitia cortar a carne.
Interrompendo-me disse o peregrino:
__ Minha alma é uma vieira e o caminho me ensinou a dela extrair sua pérola.
_Viu só! Este caminho...
 
José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E-mail: palma@caminhodosol.org

 

 

 

 

São Pedro, sábado, 15 de março de 2014

 
Vários contos
 
As conversas nem sempre são estruturadas com começo, meio e fim.
Via de regra não seguem uma lógica ou obedecem a uma cronologia.
Reflexo do próprio Caminho - às vezes os peregrinos sentem vontade de permanecer em silêncio ou alterná-lo com longos diálogos ou monólogos – com ou sem ouvinte!
Cada um conta uma coisa.
Cada um conta de um jeito.
Se para muitos é difícil ouvir o outro, para todos é dolorido ouvir-se a si mesmo.
Com o passar dos quilômetros fica difícil conter os sentimentos – extravasam pela língua mole e inquieta – às vezes com episódios intervalados por lágrimas e até mesmo com um choro incontido.
Não é somente uma lavagem cerebral, é uma faxina para lavar a alma.
Abrem a caixa preta e iniciam o duro processo de buscar reminiscências, mágoas, frustrações, alegrias, tristezas, imagens e fatos desde muito acomodadas nas gavetas do esquecimento e da negação, aparentemente inconscientes ou simplesmente adormecidas.
De repente damos de cara com o espelho da verdade e nos assustamos – este não sou eu!
O caminho é um caleidoscópio que nos apresenta uma harmonia disforme – por ser extremamente simples - exige atenção e cuidados para sua leitura e compreensão.
A vida nos distancia e nos afasta de nós mesmos – criamos e realizamos coisas e feitos incrivelmente fantásticos - grandiosos – mas esquecemos que o caminho mais curto entre dois pontos é a reta e que - dois mais dois são quatro
Trocamos a reta por curvas e a aritmética pela mecatrônica.
O tamanho do ego de muitos - não deixa espaço para mais nada – mostra-se independente, soberano, dono da verdade e auto-sustentável.
Caminhando com os pés na cabeça e o nariz nas nuvens – ele cita  uma frase de José de Alencar: “... não podendo dar largas à impaciência e adiar o arrependimento para mais tarde, pois a sabedoria das Nações e a ciência dos provérbios consagram o princípio que devagar se vai ao longe” – ele seguiu aos poucos - se desconstruindo para, mais adiante juntar os cacos e poder se re-inventar.
Na contabilidade final, me conta que substituiu as suas contas e sua forma de contar.
Antes contava suas proezas, contava vantagens e contava dinheiro.
Agora não mais.
Passou a contar amigos.
Não é melhor assim?
 
José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E-mail: palma@caminhodosol.org
 

 

São Pedro, sábado, 1º de março de 2014

 
Curtir e compartilhar
 
O universo sempre contou com a genialidade de seres especiais que deixaram inventos, criações e filosofias de vida com marcas que dividiram o mundo em “antes” e “depois” de suas passagens por esta Terra redondinha como uma bola – igual à da superfaturada Copa tupiniquim – estamos nos referindo aos custos - cuja perspectiva projeta resultado incerto e glória insabida – agora estamos falando em infra estrutura e futebol.
Imaginem o mundo sem Coca Cola Viagra, Isordil, Prozac, Papel, Telefone Celular, Ar Condicionado, Internet, Face Book e seus derivados, ou as contribuições de Eisten, Sabin, Tomás Edson, Grahan Bell, Buda, Ghandi, Martin Luther King, Nelson Mandela e uma infinidade de outros famosos e anônimos cientistas, pesquisadores, líderes religiosos cuja inteligência e genialidade estiveram a serviço da ciência, da arte, da religião, da paz e do bem comum.
Aqueles que puderam curtir uma São Paulo romântica a bordo dos bondes da Light, quando ela era conhecida como a terra da garoa, ou ainda aqueles que sabem o que significa chamar alguém de “chato de galocha” ou usaram as expressões “barra limpa” e “é uma brasa mora” - “caiu a ficha” ao invés de entendi – quem cantou “Pra frente Brasil” ou mais recentemente vibrou com as sensacionais e espetaculosas performances deste Ayrton Senna... do Brasil – tã, tã, tã... assim como eu, devem estar surpreso com a velocidade e com a avalanche de novidades, inventos e etecéteras que invadem nosso dia a dia e nosso bolso criando necessidades, mudando hábitos reduzindo nosso saldo e nosso tempo de convívio familiar, social e de lazer – ou seu filho, sobrinho, etc., não sentam à mesa teclando o celular para enviar uma mensagem para a irmã sentada à sua frente?
Tudo em nome do progresso e da intelligentsia – um tormento sem fim que nunca tem fim – assim que apertamos a tecla “enviar”, em seguida recebemos mais um monte de demandas...
Hoje virou ontem porque amanhã tem que ser hoje.
Assim comparo a genialidade e importância de Bill Gates, Steve Jobs e o jovem Mark Zuckerberg que ainda não entrou nos 30 e acaba de comprar o WhatsApp pela bagatela de dezesseis bilhões de dólares – eu disse DEZESSEIS BILHÕES de DÓLARES incorporando-o à rede do seu Face Book - aos maiores gênios da humanidade – resguardando-se medidas e proporções de seus respectivos feitos e ousadias.
E neste caminhodemeudeus vira e mexe, nos primeiros dias da longa caminhada tenho notícias que alguns peregrinos ficam desesperados por estarem distantes de seus notes, da internet e da não conexão – uma dependência que pode provocar diferentes danos e variados desajustes.
Parece que a vida distante do FACE, sem “curtir” sem “compartilhar” é algo impossível de suportar – parece que falta oxigênio!
Por outro lado o crescimento interior vem acompanhado pelos quilômetros caminhados, pela pele queimada de sol, pela roupa molhada de chuva, pelas bolhas nos pés, pelos momentos de reflexão e introspecção, pelo constante contato com a natureza, pela valorização do simples, pela prática da fraternidade, pela ausência do conforto, pelo convívio em grupo e pela perda da privacidade.
Diferentemente do FACE, aprendemos a “curtir” de forma diferente – a curtir junto - curtir os amigos, curtir a felicidade, curtir o sol, curtir o céu, curtir a chuva, curtir o esplendor da natureza, curtir as nuvens, enfim curtir cada momento.
Da mesma forma aprende-se a “compartilhar” sem ser no FACE.
Compartilhar a alegria, o amor, a amizade - aprendemos a compartilhar a vida – a vida como ela deve ser: vivida!
Venha - vamos juntos curtir os aprendizados do caminho e compartilhar momentos inesquecíveis.
 
José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E-mail: palma@caminhodosol.org

 

 

 

São Pedro, sábado, 01 de fevereiro de 2014

 
Amor não se agradece
 
Quando percorri o Caminho de Santiago em 1996 - pela primeira vez em minha vida pude vivenciar a fraternidade e compreender a intensidade do seu significado.
Corações aconchegantes, braços escancarados, sorrisos largos e desinteressados muitas vezes aliviaram minha dor, corrigiram meu caminho e proporcionaram inúmeros aprendizados.
Ao longo da jornada somos agraciados com palavras, com  silêncio, com olhares, com gestos e com atitudes que nem sempre percebemos.
Ao final, um dia... outro... outro... e as coisas começam a fazer algum sentido.
A percepção, o entendimento e a aceitação não são imediatos ou de fácil compreensão.
É preciso digerir o caminho e seus efeitos - um processo longo, gradativo e não raro muito dolorido.
Os jovens da minha geração dizem que ”a ficha demora para cair”.
O Caminho começa com uma interrogação e termina com uma enorme exclamação!
Como a roda roda, o mundo gira e tudo que arde cura, aprendemos que “menos vira mais” e “dividir é multiplicar”.
Assim voltamos à vida normal - cada caminhante é um caminho e todos somos um - com nossos traumas, nossos aprendizados e muito ânimo para se reinventar – uma reengenharia de vida.
Muitos querem devolver ao Caminho um pouco do muito que dele receberam.
Neste nosso universo temos muitos exemplos – seres que tomaram atitudes que revelam a grandeza de um coração verdadeiramente peregrino.
A imensidão de almas que criaram projetos sociais, educacionais e ambientais, iniciativas, ações e gestos que seriam temas para um tratado “pós caminho”.
Anos depois de ter percorrido o Caminho de Santiago, soube que um dos hospitaleiros que me acolheu em seu albergue era um empresário francês.
Durante a cena – jantar – ele encerrou seu relato com uma frase que marcou meu caminho e mudou por completo a minha vida.
Um pensamento que define e norteia esta trupe de dedicados e aguerridos voluntários que abastecem o Caminho do Sol “de” e “com” muito Amor.
Atenção prezado leitor - estamos aqui falando de Amor Universal - de Amor Incondicional – de fazer pelo outro sem nenhum interesse, sem mesmo saber quem é outro e o que faz.
Pense e coloque em prática o que ouvi do empresário/hospitaleiro:
__Amor não é para agradecer é para retribuir.
 
José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E-mail: palma@caminhodosol.org

 

 

 

 

São Pedro, sábado, 18 de janeiro de 2014

 

 

 

 

 

Vermífugo e Dormífugo

 

 

 

Alguns locais e personagens do Caminho do Sol já se tornaram conhecidos por muitos caminhantes e fazem parte das curiosidades de nosso universo peregrino.

 

Degustar uma pizza, no velho casarão da Pousada 1896 - em Santana de Parnaíba e ouvir o Emanuel contar passagens da história do Brasil entremeadas por explicações sobre “casas de bons ares” e relatos sobre a Companhia das Índias é ter o privilégio de agregar importantes conhecimentos e poder desbravar a mais pura e legítima cultura tupiniquim.

 

Em Pirapora visitar o Seminário Belga para dividir sorrisos e momentos inesquecíveis com padre Godofredo é um direito reservado exclusivamente aos “queridinhos de Deus”.

 

Chegar ao Armazém do Limoeiro - contemplar a arquitetura simples de um casarão nascido bem no início do século VXIII, para saborear um delicioso sanduíche de mortadela ouvindo um legítimo cururu, acalma o coração e refaz as energias.

 

Prosseguem nossos valentes - passo a passo - descobrindo uma nova realidade onde o ser é muito mais importante que o ter.

 

Na fazenda Milhã são abraçados pelo frescor da represa, pela exuberância do jardim japonês, pela energia da mandala celta e pela magia do labirinto de bambu – uma réplica do labirinto da Catedral de Chartre.

 

Em pleno canavial, atônitos ouvem Brindisi e surpreendem-se com uma nuvem repleta de mimos e carinhos de anjos voluntariosos.

 

Em Arapongas se fartam com a multiplicidade e as delícias de uma saudável mesa natural e experimentam o verdadeiro acolhimento peregrino.

 

Em Monte Branco a grandeza da simplicidade e o charme da humildade, os remetem à profundas reflexões.

 

Em Artemis descobrem a receita da felicidade.

 

Ninguém resiste à graça e simpatia do velho Egydio Mauro - que os recebe com um digno reservatório de caipirinha, aos gritos de: Viva a Rússia!

 

Quantos ali já perderam a virgindade etílica!

 

Até o líder de um grupo de sérios e recatados peregrinos orientais que aqui esteve percorrendo o Caminho do Sol sucumbiu à magia desta receita guardada a sete chaves.

 

E o velho caboclo de jarra em mãos vai completando os copos alardeando os benefícios de sua poção mágica:

 

__Pode tomar à vontade que não faz mal.

 

É um super vermífugo e um excelente dormífugo.

 

__Vai?

 

 

 

José Palma

 

Idealizador do Caminho do Sol

 

E-mail:

 

palma@caminhodosol.org

 

 

 

 

 

São Pedro, sábado, 28 de dezembro de 2013
Motivos para sorrir
Entre um turbilhão de e-mails, posts, blogs, instagrans, whats ups, chats, redes sociais, greves e graves congestionamentos, a aritmética manda nos avisar que 2013 terminou.
Este ancião trôpego e manquitolando, em poucas horas irá passar seu bastão ao nascituro 2014.
Em meio à caminhada, nosso peregrino faz o balanço e me confidencia seu diagnóstico verde amarelo.
Ano de Copa - à volta as aulas foram antecipadas e serão seguidas por um longo carnaval.
Estão todos buscando suas fantasias - torcendo para que se tornem realidades.
Um carnaval interminável emendando Copa do Mundo, eleições e etecéteras - o que seguramente irá postergar nossa quarta feira de cinzas para meados de novembro.
Sabe Deus o que nos estará reservado para este dia!
Assim como não faltam bons empregos para nossos mensaleiros, também é verdade que não faltarão obstáculos para que este nosso jovem ano tente superar.
Ao passo dado, nosso peregrino conta uma historinha que se encaixa perfeitamente neste triste script tupiniquim.
Nos idos de 1600 e pouco, por imperícia de seu comandante, a fragata inglesa havia semanas estava à deriva – quase sem comida, água racionada, a tripulação cabisbunda tinha fome, sede e fedia
O capitão chamou seu imediato e exigiu que a tripulação trocasse de roupa.
Imediatamente o subordinado reuniu os marujos no convés - investido de plena autoridade – com voz firme, barriga encolhida, peito estufado, plenipotenciário foi convocando:
- John troque sua roupa com Alan.
-Peter troque sua roupa com Frederick.
Assim, chamando um a um prosseguiu durante horas, até que todos trocassem suas roupas.
Como "missão dada é missão cumprida" foi prestar contas ao capitão, que feliz disse:
-- Excelente! Agora podemos prosseguir.
Chegamos ao final de nossa caminhada - entrego meu abraço desejando que “2014 traga muitos motivos para sorrirmos”.
Ele olha dentro dos meus olhos, respira fundo e após um longo silêncio, pausadamente diz:
__Este povo verde amarelo “profissão esperança” formado por gigantes até a pouco adormecidos, pacificamente saberá substituir nossa combalida fragata por um moderno transatlântico, comandante e tripulação, padrão “FIFA”.
Aguarde!
José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E- mail: palma@caminhodosol.org

 

 

 

 

São Pedro, sábado, 02 de novembro de 2013

 

Eu quero

 

Querer.

Eta verbinho que dá trabalho.

Tem atuação subliminar e vem revestido de forte amplitude intergalaxial.

Desde pequeno aprendemos a conjugá-lo e dele nos apropriar.

Eu quero! – eu quero e pronto.

Seu dono, seu escravo, seu patrão, seu serviçal.

Queremos porque queremos.

E exigimos o que queremos - de qualquer jeito, de qualquer forma, a qualquer custo.

Primeiro o prazer, depois o que fazer.

Mal acabamos de balbuciar mamãe - ainda engatinhando escapulimos para o querer.

Querer em primeiro e segundo lugar – querer sempre – querer muito - querer tudo - querer a qualquer hora.

E assim trocando choro por presentes – seguimos trocando presentes por dívidas.

Quem resiste ao sorriso maroto, olhos com lagriminhas – verdadeira fabrica de querer.

E assim vamos mal educando, sem perceber que estamos produzindo adultos que entendem a vida como um grande querer por querer.

Aliás, elevamos o querer ao status do “direito de”.

Um constante quero porque quero e não um quero porque preciso.

Seguimos a vida e quem tiver sorte um dia pode querer desembocar neste Caminho e sem querer aprender muitas lições.

Experiente, o peregrino segue seu caminho a passos curtos e ouvidos longos.

Ouve muito, fala pouco, nada pede, nada exige.

Somente agradece.

Um dia, de tanto escutar ladainhas repletas de querer, repletas de umbigo, repletas de futilidade – resolveu dar um puxão de orelhas coletivo.

__Prezados – disse ele.

Hoje faz dez dias que estamos caminhando.

Há dez dias tenho ouvido repetidas vezes a expressão: eu quero...

Um querer desacompanhado de qualquer compromisso com vocês ou com o mundo.

Aceitem a dica de um velho e rodado caminhante:

Antes de dizer eu quero – perguntem antes: ­

 ­­__Eu preciso?

Em seguida perguntem:

__Eu posso?

Contem até um e escutem a resposta.

Ficarão surpresos.

 

José Palma

Idealizador do Caminho do Sol

E-mail: palma@caminhodosol.org

 

 

 

 

São Pedro, sábado, 19 de outubro de 2014

 

 

 

Trem da alegria

 

 

 

Aqueles que têm poucos números no RG, certamente lembrarão com muita saudade, da fumaça, do piui e do chic chic do trem de nossa infância.

 

Quantos de nós tivemos a oportunidade de embarcar nesta felicidade e viajar neste sonho.

 

Eu mesmo tenho vivo em minha memória - cenas e recordações das minhas viagens de trem - a ansiedade de poder dormir balançando no carro leito ouvindo a cadência do tum tum – tum tum, fruto da longa e espaçada trilha de dormentes.

 

De chegar à estação Sorocabana, passar pela roleta e contemplar aquele enorme comboio prateado esperando o embarque dos passageiros.

 

Olhar a cada segundo o imenso relógio – bem no meio da Estação - anunciando que hora do embarque está vencendo.

 

De acordar bem cedo, para tomar o café da manhã no vagão restaurante.

 

De caminhar pelos corredores estreitos.

 

De parar na intersecção dos vagões – meio que uma ante sala - para apreciar a paisagem - o vento batendo no rosto até sentir a secura dos olhos.

 

Ansioso para chegar, mas torcendo para a viagem não terminar.

 

O fiscal em alto e bom som anunciando a próxima parada – vendedores levando o kit sobrevivência – mostruário e esperança de boas vendas, que se materializarão em seus discursos alegres e pré fabricados.

 

A cada estação mescla-se o entra e sai dos passageiros – abraços de quem chega – lágrimas de quem vai.

 

Diz a música: ...o trem que chega é o mesmo que parte.

 

Trás um baú de sorrisos e leva um caminhão de lágrimas.

 

Sigo meu caminho.

 

Passam os anos.

 

Passam os trens e a poesia com brilhantina.

 

Sai o telex, o telegrama e a velha Kodak - chegam a internet, o iPhone, o FACE BOOK, o WhatsApp e o Instagran.  

 

Mas a inocência, o entusiasmo e a alegria da infância – graças a Deus - insistem em ficar.

 

E lá em Mombuca, cidade por onde passa este nosso Caminho de Amor – tinha um trenzinho velho e abandonado, que outrora fizera a alegria dos adultos de hoje.

 

Igualzinho aos que desfilam os sorrisos embarcados nos trenzinhos desta nossa pequena Águas de São Pedro e em tantas outras - acenos que revelam a alma alegre e o brilho do olhar de quem sentado – contempla o mundo passar.

 

No último sábado - dia 12 de outubro – em plena semana da criança – a sensibilidade, o amor, o carinho e a dedicação do grupo de voluntários do Caminho do Sol – que ao longo de algumas semanas trabalhou duro e colocaram mãos a obra - Mombuca pôde resgatar e devolver o velho trem, a quem de direito.

 

Às crianças da cidade – seus verdadeiros e legítimos donos.

 

Que gostoso contemplar o sorriso aberto e cabelo ao vento, dos pirralhos de hoje e de outrora - agora a bordo de um sonho que acordou – de um passado que voltou ao presente.

 

Um presente do passado.

 

Obrigado voluntários.

 

Obrigado aos cidadãos, que se juntaram a eles, doaram amor e materializaram este sonho.

 

 

 

José Palma

 

Idealizador do Caminho do Sol

 

E-mail: palma@caminhodsol.org

 

 

 

 

São Pedro, sábado, 05 de outubro de 2013

 

 

 

A importância do ponto

 

 

 

O convívio em harmonia pode ser comparado à dinâmica de um monjolo.

 

A alternância de emoções e sentimentos exige pleno e constante exercício da  paciência, da humildade, da compreensão  e de alguma sabedoria.

 

Quando encher deixe esvaziar - foque no além e coloque a cadência a seu favor.

 

Funciona!

 

Olhe um monstro e veja um anjo.                                

 

E assim ao longo dos dias, a heterogeneidade de nossos caminhantes vai tomando uma forma mais homogênea e não raro – paradoxalmente - cria-se uma identidade coletiva.

 

Uma simbiose que transforma um sapo barbudo em uma centopéia de chapinha...

 

Fruto do comportamento de seres que desvestiram suas couraças e vieram caminhar dispostos a trocar o ter pelo ser e o viver pelo conviver.

 

Embora prazeroso - não é um processo simples como tomar um sorvete.

 

Que o digam, os ajustes nosso de cada dia!

 

E este é o ponto.

 

Ou melhor: “estes são os pontos”

 

Afinal ponto é o que não falta neste Caminho.

 

Sempre tem alguém perguntando:

 

__Que ponto estamos?

 

Ou:

 

__Vejam - está escrito na página quatro do guia – este é um ponto de apoio.

 

Lá do fundo vem o desabafo:

 

__Não vejo a hora de botar um ponto final nisto aqui.

 

O excesso de pontos por vezes transforma-se em reticências...

 

Caminhada já madura – nossos caminhantes somam 216 horas de convivência ininterrupta ou nove dias de caminhada.

 

Um big brother a céu aberto.

 

Uma peregrina resmunga que não agüenta o calor, diz  que está a ponto de parar.

 

Para animá-la o peregrino ao lado rebate :

 

__Força! É neste ponto da caminhada que precisamos de determinação e perseverança.

 

Outra caminhante mais adiante se vira e diz:

 

__No guia está escrito que aquele morro ali na frente é o ponto ideal para descansar – tem um banco, uma sombrinha e uma bica de água, verdadeiro genérico do paraíso.

 

O outro emenda:

 

__Sim, aquele ponto lá é um verdadeiro oásis.

 

Com o excesso de pontos pesando na mochila, Jardel não se conteve.

 

Estava um pouco atrás caminhando com sua esposa – cujo domínio e saber da arte culinária eram do conhecimento de todos - pois via de regra fazia questão de enriquecer os jantares com apetitosas e agradáveis surpresas.

 

Com as costas das mãos ele enxugou o suor, ergueu o boné e apoiando-se no cajado disse:

 

__Alguém aqui sabe preparar um arroz cardeal?

 

Ninguém respondeu.

 

__Vocês que se preocupam tanto com o ponto, por acaso sabem a importância do ponto, quando preparamos o arroz cardeal?

 

Diante do silêncio e de olhares curiosos, continuou:

 

__Temos que estar muito atentos ao ponto - se o arroz cardeal passar do ponto ele se torna papa.

 

 

 

José Palma

 

Idealizador do Caminho do Sol

 

E-mail: palma@caminhodosol.org

 

 

 

 

 

 

 

São Pedro, sábado, 07 de Setembro de 2013


A eternidade dos segundos

 

 

 

Vencer grandes distâncias dando um passo de cada vez.

 

Cautela, para saber que o mergulho profundo impõe ao mergulhador a necessidade de realizá-lo em estágios.

 

Para perfurar as nuvens e tocar o azul celestial, aquele que alça vôo deve vencer a altimetria escalando-a centímetro por centímetro.

 

Realizar grandes projetos exige muito mais que uma pobre, simples e solitária intenção.

 

Entre tantos predicados é necessário saber harmonizar situações e emoções, encaixá-las em seus lugares com sensibilidade, paciência e perseverança.

 

Vencedores habitam o universo onde sonhos e devaneios são elevados à categoria de realidade.

 

Ao cientista a descoberta.

 

Ao médico a cura.

 

Ao arquiteto o projeto.

 

Ao engenheiro a obra.

 

Ao ator o palco.

 

Ao caminho o caminhante - pois é ele que nos produz que nos lapida que nos transforma.

 

E nesta simbiose, ao desenhar novos horizontes rabiscando na prancheta do passado a arquitetura de um futuro presente – “dolorido presente” – temos a oportunidade de parir um novo ser.

 

Na lentidão de cada passo, a sombra, o lampejo e a clareza de um passado que insiste em pisar o mesmo chão.

 

Crenças invisíveis, descrenças visíveis, vida vivida, morte morrida e nascimento parido.

 

Uma redundância que ao longo da jornada escreve sua estória buscando registros guardados na alma, resgatando antigas e recentes cicatrizes - repensamos o futuro que um dia será passado.

 

Verdades impensadas, que fariam o mudo falar, o surdo ouvir e o cego enxergar.

 

Uma clareza surreal em tempo irreal.

 

Mas tudo absoluto e verdadeiro, como uma quarta via.

 

Eu não sou eu.

 

Eu sou eu e minhas conseqüências.

 

Fruto de minhas ações e omissões.

 

Assim, multiplicando a lentidão de cada passo e dividindo a eternidade de cada segundo vivemos a ambigüidade.

 

Deixamos de ser uno!

 

Pisamos o passado, visitamos o presente e vivemos o futuro.

 

Ao final, a certeza de saber que:

 

Ontem eu vou, porque amanhã eu fui.

 

 

 

José Palma

 

Idealizador do Caminho do Sol

 

E-mail: palma@caminhodosol.org

 

 

 

 

 

São Pedro, sábado, 27 de julho de 2013

 

   

 

Um menino feliz

 

 

Apesar de sua pouca idade e já estar batendo à porta para ingressar na adolescência – tem muita estória para nos contar.

 

Mas hoje ele não quer falar sobre realizações.

 

Hoje ele só quer agradecer - porque não trilhou este caminho sozinho, com suas sombras.

 

Só chegou até aqui porque muitos sonharam junto este sonho acalentado no seio do Apóstolo.

 

Vejo um brilho em seus olhos, quando orgulhoso exibe um voluntariado aguerrido, exemplar e dedicado a “fazer o bem sem olhar a quem”.

 

Sinto o calor que emana de seu coração quando os Anjos do Caminho batem suas asas rumo às nuvens que alimentam o corpo e a alma de peregrinos sedentos de sede e com fome de abraçar um abraço.

 

Percebo nele uma pontinha de ciúme quando elogiam seus hospitaleiros - mestres na arte de acolher - cada um a seu jeito, cada um a seu modo.

 

Mas seu grande e valoroso patrimônio são os caminhantes.

 

Uma corrente homogênea com o D.N.A. original do ser humano – aquele verdadeiro - que Deus criou.

 

Passos separados que se unem para construir o caminho que é de cada um.

 

Vida que se renova ao passo dado.

 

Lágrimas e sorrisos sem rótulos.

 

Uma estrada de encontros que se desencontram pela vida afora.

 

Experiências que se acumulam e excessos que são jogados.

 

Verdades que encontramos e vaidades que perdemos.

 

Conquistas conquistadas com dores doloridas.

 

Voar sem tirar os pés do chão.

 

Vertigem rasteira que dá medo do desconhecido.

 

Ao final o gosto gostoso da vitória de quem soube vencer.

 

A descoberta do eu que doeu.

 

A descoberta que existe o outro.

 

Um caminho fácil para caminhar, mas extremamente difícil para explicar.

 

É muito simples!

 

Um Caminho e muitos caminhos.

 

A mais dura – é a verdade verdadeira.

 

Nua e crua – eu sou eu e minhas conseqüências!

 

Amanhã o presente virou passado e o futuro será amanhã.

 

Como ontem.

 

Novos horizontes - velhos sonhos de velhos que sonham.

 

Realidade estranha que surge da desconstrução de crenças e antigos conceitos.

 

Novos amigos que desde sempre reforçam os alicerces que mantém esta insanidade chamada Caminho do Sol – o Caminho do Amor!

 

A vocês peregrinos, bicigrinos, hospitaleiros, voluntários, anjos do caminho, Igreja, Prefeito, Secretários e funcionários municipais, Câmara de vereadores, comerciantes, hoteleiros e moradores de Águas de São Pedro, um forte e querido abraço.

 

Um agradecimento sincero pela atenção, cuidados e carinho no acolhimento aos peregrinos do Caminho do Sol.

 

Juntos vamos todos assoprar estas onze velinhas!

 

Parabéns a todos nós.

 

Seguimos juntos – afinal o Caminho continua.

 

E depois daquela subida... tem outra e depois... e depois...

 

 

 

Forte abç.

 

José Palma

 

Idealizador do Caminho do Sol

E-mail: palma@caminhodosol.org

 

 

São Paulo, sábado, 22 de junho de 2013

 

 

 

 

 

Falar é fácil

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

São Pedro, sábado, 08 de Junho de 2013

 

                                                         

 

 

 

Diga-me com quem andas...

 

 

 

Toda vez que seu amigo vinha com aquela conversinha mole de caminhada contemplativa – passar onze dias caminhando - ele cortava o papo e ia logo dizendo:

 

__Me inclui fora desta!

 

Como dizia Dna Julia, cuja lembrança me remete ao velho e querido Dante Alighieri - bancos envernizados, quadro negro, giz colorido, calça curta e cabelo escovinha:

 

__água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.

 

E furou - por um descuido resolveu aceder e assim deu o 1º passo - ou escorregão - para iniciar seu périplo pré caminho:

 

Fez sua inscrição, assistiu à palestra – saiu apavorado ao saber que as pousadas eram extremamente simples, sentiu um arrepio na espinha quando falaram em “perda da privacidade”.

 

Passou à etapa seguinte: check list na mão – respirou fundo e foi comprar os equipamentos necessários para poder realizar a tal “caminhada contemplativa”.

 

Incomodou-se - quase desvestiu a mochila e jogou fora seu cajado, ao perceber olhares estranhos naquela tarde de sábado - quando ambos caminhavam pelo Parque do Ibirapuera, em pleno sábado à tarde.

 

Que mico leão dourado! –pensou em voz alta.

 

Crescera ouvindo seu pai dizer, que às vezes é preciso ficar quieto para ser ouvido.

 

Ó... ledo engano – devia ter esperneado – gritado, fugido, mas jamais silenciar e embarcar nesta canoa furadíssima, que seu amigo lhe acomodara.

 

Chegou o grande dia.

 

Sorriso amarelo - desajeitado como japonês no samba - com cara de paisagem, não teve escolha - a esta altura teve que encarar - caiu de para quedas no lugar errado.

 

Que fria!

 

Começou o Caminho - com ele as surpresas, os desafios, as dores do corpo e da alma e os aprendizados.

 

Um mundo novo, diferente, esquisito – uma mistura de chiclete com banana – surpreso e assustado - a cada passo descobria um novo ser, uma nova criatura, alegrias e tristezas – dúvidas e certezas ao olhar no espelho da vida e não se reconhecer.

 

Em seu depoimento final, relatando o inusitado que a experiência lhe causara, prometeu rever as atitudes passadas, para descobrir a verdadeira razão do convite.

 

Entre lágrimas abraçou o amigo e agradecendo e encerrou:

 

__ Quem acompanha tatu, sempre acaba no buraco!

 

 

 

José Palma

 

Idealizador do Caminho do Sol

 

E-mail: palma@caminhodosol.org

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

São Pedro, sábado, 25 de maio de 2013

 

 

 

 

 

 

 

 

São Pedro, sábado, 11 de maio de 2013

 

Não basta ter filhos

 

Assim como o relógio, este caminhodemeudeus só anda para frente.

Vivendo o presente em busca do futuro, vamos colecionando causos e aprendendo lições.

Concordo com Adélia Prado - que honrou o estado de Minas Gerais, quando pediu à cegonha para entregá-la na maternidade da rica e próspera Divinópolis: ”temos que viver de sonhos, porque sonhos não acabam.”

Sugestão que procuro seguir em gênero, número e degrau (rs!)

Nosso peregrino juntou-se a este exército de gente doida, convencido que empunhando um cajado, poderia sair caminhando mundo afora distribuindo abraços e sorrisos rasgados, provando que viver nesta bolinha azul é muito mais simples do que preconizam os sábios de Wall street, ou desvendar as entrelinhas dos boletins sobre previsão do tempo.

Literalmente abandonou os “entretanto e partiu para os finalmente” - não deu bola para nada – meteu as caras e foi dando um montão de passos, até chegar à Casa de Santiago.

Assim como quem compra um par de tênis e inscreve-se para correr a São Silvestre, escolheu a melhor e mais cara mochila que encontrou no mercado, com a certeza que seria o suficiente para cortar caminho e tocar o céu.

Com entusiasmo e muita determinação colecionou desventuras e acrescentou conhecimentos. Revela-nos que o saldo foi amplamente positivo e as lições extremamente úteis.

Citando Mansour Chalita - poeta de origem libanesa, atualmente vivendo nesta terra descoberta pelo seu Cabral, disse:

__ “Acreditar que basta ter filhos para ser pai, é tão absurdo quanto acreditar, que basta ter um instrumento para ser músico”.

Então prezado leitor pegue sua viola enfie na mochila e venha caminhar, pois: “A perseverança não é uma corrida longa, ela é uma seqüência de muitas corridas curtas – uma depois da outra” – Charles W. Elliot.

 

José Palma

Idealizador do Caminho do Sol

E-mail: palma@caminhodosol.org

 

 

 

 

 

 

São Pedro, sábado, 13 de abril de 2013

 

Sorrir ou desviar

Entre um passo e outro ele me diz que caminhar nos permite escarafunchar os meandros de um passado que já passou.

Ressuscitar reminiscências cavocando pedaços de uma memória analógica que insiste em esquecer que deve se lembrar de não esquecer.

Uma memória que acumula décadas de atividade - vinte e quatro horas por dia registrando fatos, nomes, alegrias, tristezas, filmes, amores e desamores é tênue como a nuvem - muda de forma e dilui enquanto a vida vive.

Segundo seu neurologista - temos que fazer uma coisa de cada vez concentrando-se cuidadosamente em cada ação.

__Hum! Como assim - e minha imaginação, meus sonhos, meus devaneios - o que faço com eles enquanto executo outras coisas?

Não consigo viver sem sonhar, sem fazer planos e vê-los efetivamente realizados: pé no chão e cabeça na lua.

De devaneio em devaneio sigo transformando os meus sonhos de estado gasoso em sólido.

Firme e convicto, continua:

__Entre os valores e crenças que acredito, estão o amor, o comprometimento, a ética, a qualidade e o profissionalismo. Atitudes que tenho tomado ao longo do meu caminho.

Foi numa destas que, conversando com um conhecido em pleno centro da cidade, ele conta que topou com uma pessoa, que fez questão de parar para cumprimentá-lo.

E o fez com um efusivo abraço e um largo sorriso no peito.

Mencionou com detalhes, uma compra que fez e o deixou constrangido de tantos elogios ao relacionar os benefícios que teve.

Quando se despediu, a pessoa que o acompanhava disse:

__Poxa, que legal este reconhecimento!

Com uma ponta de orgulho, disse ao seu interlocutor:

__Meu caro, se estiver comigo e alguém fizer questão de vir me cumprimentar - saiba que esta pessoa comprou algo de mim.

Porém, se ela atravessar a rua ou me evitar - saiba que ela me vendeu alguma coisa.

__Venha! Vamos caminhar.

 

José Palma

Idealizador do Caminho do Sol

E-mail: palma@caminhodosol.org

 

 

São Pedro, sábado, 30 de março de 2013

 

 

PIB & FIB

 

Esta peregrina Leila, conta-me coisas incríveis.

Ao longo de seu caminho vai colecionando estórias – verdadeiras pérolas que coloca em sua mochila, para distribuir em suas palestras pelo mundo afora.  
Uma peregrina high tech – super antenada! nada escapa ao seu radar. Inteligente, colorida, divertidíssima saiu da linha de montagem com todos os equipamentos que uma poderosa deve ter para ultrapassar o sucesso.
Versátil e criativa extrapola os limites do seu limite – ela é elástica - sempre a frente de seu tempo. Acima, muito acima da média - aguerrida e determinada, uma mulher viciada em vitórias.
Recentemente levou seus pés para conhecer o Butão, um reino asiático localizado entre China e Índia.
Tirando-me das trevas revelou-me coisas muito interessantes - compara a felicidade que se vive neste caminho enSOLarado, com um pouco do que viu em sua peregrinação por aquelas sendas.
Lá o Estado proporciona ao povo condições de buscar a felicidade e seguir os ensinamentos do Budismo.
Existe uma política pública, que procura medir o grau de satisfação da população - mesmo sendo um país extremamente pobre, a felicidade é um sentimento generalizado, considerado Patrimônio Nacional.
Assim como no Caminho do Sol - não existe ostentação – ao contrário busca-se a simplicidade nas atitudes, na aparência, nos objetivos. Uma filosofia - ou não filosofia – na verdade, não sei - cuja fórmula conduz ao êxito.
O modelo capitalista criou seu ícone - o PIB Produto Interno Bruto - sigla que nos escraviza em nome do crescimento e da selvageria econômica – a qualquer preço a qualquer custo.
O Butão criou o FIB – Felicidade Interna Bruta, índice que mede o grau de satisfação da população. Assim como neste Caminho de Amor, as decisões são baseadas no sentimento que irá proporcionar. Se ele for bom está aprovado!
Então prezado leitor – o Butão está lá – o Caminho está aqui.
Venha caminhar.
Venha ser feliz!
 

 

 

José Palma

Idealizador do Caminho do Sol

E-mail: palma@caminhodosol.org

 

 

 

 

São Pedro, sábado, 16 de fevereiro de 2013

 

 

 

Instrumento de corda

 

 

Duas estradas se bifurcaram no meio da minha vida - peguei a estrada menos usada e isto fez toda diferença, cada dia e cada noite – Larry Norman.

Teve dias, que meus sentimentos eram uma catástrofe - uma sensação de culpa sem sujeito - com um monte de adjetivos. Um sarapatel de entranhas expostas - um festival de cansaço em compota - uma verdadeira invasão de feijões gigantes entrando pela minha mochila e saindo pelo meu boné.

Um estranho no meio de gente esquisita, que aos poucos foi ocupando minha vida e fazendo parte dela.

Defeitos que passei a admirar e qualidades que me causaram inveja – me senti pequeno.

Gente que a noite fazia a leitura do céu explicando o que é o “céu da caça” e o “céu do caçador” decifrando os mistérios da Lua, a beleza de Vênus e para reforçar nossa aliança - os anéis de Saturno. Uma catapulta que me lançava às alturas gerando informações que jamais imaginei alcançar enquanto carregava uma mochila e empunhava um cajado.

Gente com sensibilidade para acariciar nossa alma desviando nosso caminho, para desembocar em um perfumado orquidário.

Gente que sabe ouvir e sabe pensar - sabe falar e sabe calar. Gente que sabe tocar - sabe e toca muito!

Toca divinamente - o instrumento e a nossa alma.

Tudo a seu tempo e do seu jeito, aliás - do melhor jeito. De sanfona a gaita, de violão a violino, foi um show de sopro, cordas, fole e talento.

Adolescente – ouvi o violão – lembrei do professor que batia em minhas mãos – da usina de desculpas que eu gerava para fugir destas aulas infernais.

Jovem - ouvi a guitarra - lembrei do garoto... que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones - não era belo, mas mesmo assim havia mil garotas a fim...

Maduro, muito maduro - terminei meu Caminho - cheguei a Casa de Santiago - segurei a corda e toquei o Sino da Glória – tantas vezes, que quando me encontrei estava perdido - me senti grande.

Pela primeira vez e de forma soberba – toquei um instrumento de corda – solo!

 

José Palma

Idealizador do Caminho do Sol

E-mail: palma@caminhodosol.org

 

São Pedro, 02 de Fevereiro de 2013

 
 
A sucuri do Caminho
 
Com a certeza que o mundo aboliu certezas, começou a última etapa com vontade de não começar.
Uma vontade saideira que habita nosso ser e materializa-se quando abrimos a última página do Guia e sentimos o gostinho ardido da angústia de terminar - somos invadidos pelo desejo de não chegar ao fim.
É verdade que vivenciamos muitos e diferentes sentimentos, temos grandes alegrias, descobertas e constatações, sempre seguidas por algumas dores aqui, lá e acolá.
Dores de todo tipo, tamanho, forma e intensidade.
Dói o corpo e dói a alma – como a ressaca no dia seguinte - dói tudo!
Para os peregrinos uma dor diferente, não só pelo excesso de beta endorfina – substância que o corpo vai liberando durante os dias de caminhada - mas principalmente como conseqüência de todo o processo.
Tem gente que descobre que Deus, não é um executivo com tarefas e responsabilidades de bem gerir vidas – elaborar um planejamento estratégico, apresentar um balanço ao final do exercício, ou mesmo ser responsável pelo desempenho e expansão do Universo - abrindo filiais e um monte de franquias do planeta Terra.
Descobre que para ser peregrino, não precisa ser burro.
Descobre que ao longo do caminho, as coisas não são como são - são comoção.
Comove-se ao descobrir que Clarice Lispector estava correta, quando disse: “eu sou mais forte que eu”.
Comove-se ao descobrir que pode rir de suas vaidades, diante da magnitude da natureza e de seus mistérios.
Comove-se ao descobrir que segurar o cajado pode dar bolha nas mãos e machucar o coração...
Comove-se ao descobrir que o destino é um deserto e que somos herdeiros de nosso passado.
Comove-se ao descobrir que uma coisa é uma coisa e que outra coisa é caminhar todo dia, diàriamente, debaixo de sol, chuva, calor, frio, subir subidas e descer descidas carregando uma mochila cheia de reflexões e... como pesam estas danadas!
Mesmo desconhecendo o autor da frase, comove-se ao descobrir que no fundo, no fundo preferimos o raso.
Mas a comoção maior fica por conta deste peregrino, que meses depois revela-nos, quase morrer de “indigestão pós caminho”.
Segundo ele, com o passar dos dias, tantos foram os questionamentos e a leitura gradual de tudo que viveu que ele tinha a sensação de ter engolido uma cobra enorme - uma coisa esquisita – difícil de digerir.
Uma digestão indigesta, lenta e prolongada - uma verdadeira sucuri do Caminho!
 
José Palma
Idealizador do Caminho do Sol

E-mail: palma@caminhodosol.org

 

 

 

 

 

 

 

São Pedro, 05 de janeiro de 2013

 

 

 

Metamorfose ambulante

 

 

 

Este laboratório a céu aberto, esta usina de amor, esta fábrica de emoções, esta fazenda de felicidade, esta plantação de abobrinhas é também uma verdadeira indústria de reciclagem de seres humanos.

 

Impossível sair impune desta bombástica e invisível lavanderia “in vitro”.

 

Um processo de mais valia - como diz nosso hospitaleiro/voluntário: “um caminho parideiro de novos seres” permitindo que ao final da jornada, cada participante apresente uma nova versão de si mesmo – segundo o pensamento deste grande filósofo e escritor Sergio Cortella - que assim define a constante e permanente mutação do ser humano.

 

Para nós, simples espectadores e expectorantes observamos que a dor só varia de intensidade e motivo, e ela é de cada um - diretamente proporcional ao grau de rigidez e teimosia do seu dono.

 

Não dá para ser diferente, e aí reside uma das principais razões do aprendizado de cada peregrino.

 

O mais legal é que o exemplo está bem embaixo de nosso nariz – todo dia, diariamente.

 

É visivelmente invisível; Caminha, senta-se e dorme ao nosso lado, está nos gestos, nas palavras, no silêncio, no olhar, na árvore, no céu, no chão, no vento, no rio, no sono, no sonho, no pesadelo e pelo caminho afora.

 

Assim como o título do filme do casal Carlos Alberto Riccelli & Bruna Lombardi – ambos peregrinos Globais - a pergunta é: Afinal, onde mora a felicidade?

 

Há mais de dez anos tenho acompanhado os peregrinos tanto na saída, como 11 dias e 240 km depois, quando terminam o Caminho. Vejo com olhos de quem sabe ouvir, as transformações que ocorrem.

 

Muitos chegam timidamente eufóricos, alguns chegam parcialmente, outros - só chega a cabeça, tronco e membros.

 

Fruto das reflexões, no pós caminho há muito para ser digerido. Pensar e repensar como encarar a vida com uma leitura diferente.

 

Saber dosar a intensidade de seus atos, tanto na vida profissional como familiar, não ostentar e viver com simplicidade, saber perdoar, aprender a ouvir, ter humildade para reconhecer seus erros e pedir perdão, valorizar suas qualidades e respeitar seus limites.

 

Este modelo não significa passividade e conformismo diante da vida, ao contrário demonstra sapiência para ser longevo e ter uma vida com qualidade.

 

Com sua mochila contabilizando muitos kilometros caminhados e acumulado muita experiência, diz a peregrina:

 

__Não ponho minha felicidade nas mãos de ninguém; Não me aborreço com elevador que demora, farol que não abre, chefe incompetente, vizinho chato e situações que possam levar ao stress, terminar em depressão e trazer reflexos a saúde.

 

Colocando um rasgado sorriso no peito, concluiu:

 

__O tamanho da vida tem a dimensão da alma e a leveza do espírito.

 

 

 

José Palma

 

Idealizador do Caminho do Sol

 

E-mail: palma@caminhodosol.org  

 

 

 

 

 

São Pedro, sábado, 22 de dezembro de 2012

 

 

Oximoros do caminho

 

É... caminhar é muito mais que colecionar passos, engolir estradas ou imaginar que seja uma nova política de extermínio.

Sob o calor de um sol escaldante, o delírio de saber que a água que falta no cantil (lá longe) sobra na torneira, nos mostra que fatos superam interpretações e que desde muito este velho e fantástico mundo peregrino aboliu certezas e caminha redefinindo conceitos.

Rever valores, refletir sobre sentimentos como egoísmo, vaidade, perdão, humildade, práticas como a fé, amor, fraternidade, ou atitudes como burrice e teimosia, nos faz compreender que somos donos de um latifúndio improdutivo – felizmente sem escritura definitiva.

Peregrinar não deve ser a busca da absolvição eterna.

Sair de casa, desvestir nossas couraças abandonando o conforto do nosso viveiro de ilusões, ter o peito de trocar o luxo pelo simples, o terno pela bermuda, a cama pelo beliche, a caneta pelo cajado, o exigir pelo pedir e o carro pelo tênis, é ingressar em uma universidade que nunca tem fim, a não ser que ele próprio resolva chegar.

“O caminho nunca termina” nos revela em seu livro, esta querida peregrina e escritora batizada Fabiana, que desde neném carrega em sua mochila o sobrenome “Passos” - que um dia permitiu que seus “passos” pudessem transformar-se em pegadas que valorizaram este solo querido.

Chorar sorrindo ou sorrir chorando - contrastes que lapidam nossa alma – da mesma forma como se lapida a têmpera do bom aço, entre o fogo, a água e muita marretada.

A certeza que carregamos dúvidas é o confortável desconforto de flutuar pisando este chão irregular, pedregoso, lamacento e empoeirado, que mostra nossa capacidade de realização - aprendemos que este sonho atende pelo nome de objetivo e que somente a perseverança, a determinação, a fé e o amor o elevarão a categoria de realidade.

De repente o peregrino para, enxuga o suor em sua testa e do alto de seu cajado, olha para as nuvens que carinhosamente oferecem – imaginárias e graciosas figuras:

__Este caminho é um oximoro!

Com uma clareza mórbida e um silêncio eloqüente - para quem quiser e conseguir ler através de sua cegueira - explica-nos este grande mestre “Aurélio” que:

Oximoro é a figura que consiste em reunir palavras contraditórias. “Caminho do Sol” - subtrair e dividir somam-se e multiplicam-se, para nos ajudar a definir aquilo que definitivamente é inexplicável.

José Palma

Idealizador do Caminho do Sol

E-mail: palma@caminhodosol.org

 

 

 

 

 

 

São Pedro, sábado, 08 de dezembro de 2012
 
Olha a nuvem
 
“Cada caminho é um Caminho” – mais que uma frase recorrente é a verdade verdadeira, que constatamos ao percorrer os muitos Caminhos deste nosso universo peregrino.
Crescer com as dificuldades, conviver com as diferenças, conhecer diferentes culturas, colecionar amigos e valorizar o simples são o legado que passo a passo, vamos acomodando na mochila de nossas vidas.
Uma das primeiras lições que aprendemos, é jamais comparar os caminhos – porque “cada um tem seu cada qual” e ao somar os passos vamos multiplicando experiências, dividindo alegrias e apagando mágoas passadas; compreendendo que em nome do crescimento interior, o universo jamais colocará tudo a nosso favor.
Tomar atitudes, não significa “ter assertividade” – os resultados nem sempre são servidos em bandejas douradas; não devolvem sorrisos ou apresentam soluções imediatas
Seguimos pelos caminhos deixando nossas pegadas, colhendo os frutos de quem quer enxergar o mundo com os olhos do coração e ter a oportunidade de viver a nobreza da simplicidade com a seriedade de uma alma leve e descontraída – sem as couraças do dia a dia!
Como cada caminho é um caminho, o grupo segue deixando suas marcas.
Sol a pino - pouca água, pés quentes, cabeça fria, alma leve, mochila pesada e muitos kilômetros pela frente.
Lá adiante – muito adiante - como uma miragem mal desenhada e incandescente – o peregrino avista uma nuvem - menção aos peregrinos/voluntários - que se organizam para surpreendê-los ao longo do percurso, oferecendo abraços carinhosos, sucos, frutas, sanduíches, bolos e outras calorias, que matam a fome, saciam a sede e alimentam a alma.
Ele não se contém:
__Nossa! Vejam que baita nuvem!
Um dos peregrinos, introspectivo, entretido com a cadência do cajado, retruca:
__Caracas! Estou sem a capa - chuva agora não.
 
José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E-mail: palma@caminhodosol.org
 

 

 

 

São Pedro, sábado, 24 de Novembro de 2012

 

 

Pedras que falam

 

Fevereiro de 2007 – Álvaro de La Torre – convidado pelo Instituto Caminho do Sol vem ao Brasil para conduzir a caminhada sobre “Geometria Sagrada”.

Tema que conhece profundamente e como construtor utiliza em suas obras, todos os princípios desta antiga ciência.

Desde nosso primeiro contato, ele me pediu uma série de informações, como latitude e longitude de cada pousada do Caminho - do ponto inicial em Santana de Parnaíba, até seu término, na Casa de Santiago, em Águas de São Pedro – para que pudesse identificar o ponto ideal para construir uma Mandala Celta.

Retornou dias depois, já com o local definido – Fazenda Milhã – localizada no município de Capivari - bem no meio de nossa rota.

Aí começa uma série de sincronicidades deste inesquecível evento.

Pelas providências que precisariam ser tomadas, eu o coloquei em contato diretamente com a proprietária da fazenda, visando assim agilizar o processo, pois ele teria que abandonar o grupo dois dias antes, para participar da construção da Mandala.

Assim, durante  caminhada - conforme programado deixou o grupo de peregrinos na cidade de Salto e seguiu de carro rumo à fazenda Milhã.

Nos contatos preliminares entre Álvaro e Christina – ele passou a ela uma série de informações e recomendações.

Entre elas, uma muito curiosa:

__Christina, as pedras tem face e lhe explicou detalhadamente como identificá-las.

Quando chegou para acompanhar a construção da Mandala, ficou admirado com a quantidade, formato, tamanho e harmonia das pedras e perguntou a Christina como ela conseguiu tanta perfeição.

Com a segurança, determinação e objetividade que a caracterizam respondeu:

__Álvaro, na verdade precisei viajar para participar de uma reunião que surgiu inesperadamente - chamei então meu administrador e disse:

__Preciso viajar a Brasília, portanto não poderei ir com vocês, mas vou lhe explicar direitinho como deve fazer para identificar a face das pedras.

Explicou uma, duas, três vezes.

Como percebeu que seu funcionário olhava para ela com cara de paisagem e não entendia nada, disse-lhe com voz firme e segura:

__Faz o seguinte: cada pedra que encontrar, olhe bem para ela e pergunte:

__Pedra, a Dna Christina vai gostar de você?

__Se ela responder sim – chame os ajudantes, peça para carregá-la no caminhão e traga para a Fazenda.

 

José Palma

Idealizador do Caminho do Sol

E-mail: palma@caminhodosol.org

 

 

 

São Pedro, sábado, 10 de novembro de 2012

 
Aprender fazendo
 
Desde cedo ouvimos falar que “na prática a teoria é outra”.
Evidentemente não é uma regra geral, mas como também nos emprenharam pelos ouvidos, enfiando tímpano abaixo que “paciência e caldo de galinha, nunca é demais” - o ideal é acautelar-se e tentar seguir a vida serenamente procurando dar um passo de cada vez – e olhe lá!
Nossa resposta padrão aos e-mails e telefonemas que recebemos, ou mesmo na padaria, no jornaleiro, no clube, ou onde quer que nos peçam informações sobre o Caminho do Sol, a orientação é sempre a mesma: que o futuro caminhante assista a Palestra Orientativa, antes de vir ao Caminho.
__Mas moramos em Aracaju – dizem elas em seu e-mail.
__Bá guri - ontem resolvi fazer o Caminho chê - ouvi dizer que é tri legall - moro em Sant Antonio do Cata Vento chê! - a 412 km de Porto Alegre – adiante de São Borja, quase na esquina do fim do mundo – não dá pra assistir a tal palestra chê!
__OK! Basta nos enviar seu endereço que mandaremos o DVD da Palestra Orientativa - é o que exaustivamente repetimos do lado de cá do balcão.
Insiste nosso futuro peregrino explicando que já leu todos os livros a respeito de peregrinações, caminhos & caminhantes, além de acompanhar pela internet todas as listas de discussão que existem sobre o tema.
Algum tempo depois, nosso gaucho despenca na pousada inicial – em Santana de Parnaíba – trazendo a tiracolo uma linda algibeira de couro trabalhado, que acomodava uma enorme garrafa térmica, cuia, erva e uma bomba de prata.
Livros – leu um montão!
Passos – nunca deu um sequer!
Onze dias depois, ele e seus acessórios chegam ao final.
Sentado - sem coragem sequer para levantar e fazer seu depoimento - diz que desta vez aprendeu a lição.
Marcel, ou alemão – peregrino precavido - planejou sua empreitada - assistiu a Palestra Orientativa, seguiu a risca as dicas e orientações que recebeu, preparou-se física e emocionalmente, realizando caminhadas sempre acrescentando kms, subiu subidas, desceu descidas, caminhou debaixo de sol, chuva, frio e calor.
Aos poucos, foi testando os equipamentos e acessórios adequados.
Cuidadoso, raciocínio lógico, forte capacidade criativa, atento - sempre tratou de cuidar de todos os detalhes com antecedência.
Verdadeiro espírito peregrino – assistiu nosso conterrâneo e não fosse ele, o descuidado gaúcho, morador na longínqua, pacata, minúscula e desconhecida Sant Antonio do Cata Vento, desnecessàriamente teria sofrido muito mais.
Em seu depoimento, conta-nos este peregrino de nome Marcel e apelido “alemão” - a importante dica – entre tantas - que aprendeu ao ler o livro “Como chegar ao SIM” e desde então, o tomou como princípio para lograr êxito nos desafios que a vida nos apresenta.   
__Você não ficará em boa forma física, somente lendo o Manual dos Exercícios da Real Força Aérea do Canadá.
Nem tão pouco será bom em natação, ciclismo, hipismo, esgrima e outras atividades, somente lendo livros e estudando teorias.
Paralelamente, temos que treinar praticar – perseguir a qualidade e a perfeição.
Tornarmos-nos íntimos e cúmplices do meio e da forma.
A soma da teoria, prática, conhecimento e planejamento – constituem um  rico cardápio, servido em uma só bandeja, para que possamos atingir nossas metas e alcançar nossos objetivos.
__Onde é mesmo, que posso comprar este livro?
__Quer um também?
 
 
José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E-mail: palma@caminhodosol.org

 

 

 

 

São Pedro, sábado, 27 de outubro de 2012

 

Último passo

 

Muito mais que descobrir um mundo de coisas novas, peregrinar nos permite uma reengenharia pessoal – a possibilidade de reinventar-se.

Fatos e acontecimentos esquecidos vêm à tona – um resgate!

Alegria e amargor alternam-se - lembranças ofuscadas pela densidade do cotidiano - frases feitas e pensamentos já pensados – protocolos inconscientes de uma vida sem vida.

Um script com reflexos sistematizados, opiniões e pontos de vista formatados - imutáveis – respostas e atitudes automáticas que blindam o raciocínio e bloqueiam a percepção, a sensatez e a flexibilidade – orgulho, vaidade e altivez impedem de ouvir verdadeiramente o que deve ser ouvido, mudar verdadeiramente o que deve ser mudado e dizer verdadeiramente o que deve ser dito.

Confidenciou-me este peregrino que já contabiliza mais de sessenta outonos, que a monotonia do canavial o induziu a uma profunda imersão em seu passado - tendo como “marco zero” o universo uterino – nossa morada durante o breve período de nove meses.

A partir daí repassou toda a arquitetura de sua trajetória, reconstituindo cuidadosamente cada acontecimento de sua vida.

O primeiro flash foi seu aniversário de quatro anos e a partir daí, seguiu catalogando os registros que sua memória conseguiu confiscar.

Passou pelo jardim de infância, primário, e ginásio - lembrou do professor de história que atirava giz em quem conversasse durante a aula – e que pontaria! Lembrou do acidente fatal que vitimou seu pai e sua avó; do braço quebrado em uma corrida de carrinho de rolemã, a paixão pela primeira namorada – uma ruivinha - que lhe deu o  1ºdisco dos Beatles - dos bailinhos nas garagens - onde Ray Conniff reinava soberano – do susto, quando eclodiu a revolução de 64, da triste experiência - quando aos 17 anos - montou uma lanchonete em sociedade com o zelador do seu prédio e  perdeu um dinheiro que não era seu, escreveu com um  Ketchup vencido,o capítulo inicial de sua maturidade.

Interrompeu os estudos para trabalhar com venda de pedras brasileiras. Depois como vendedor de livros - foi um fiel passageiro do trem para Santo André - gastou muita sola de sapato como vendedor de consórcios - voltou a estudar a noite - prestou exame de “madureza”, para recuperar o tempo perdido.

Aos dezenove anos conquistou seu primeiro emprego com carteira assinada. Ao final do 4º ano da Faculdade, casou-se - vieram os três filhos – profissional dedicado seguiu conquistando cargos importantes - até aposentar-se como Presidente de uma empresa multinacional. E assim ao passo dado, sacava da mochila fatos alegres, tristes, choros verdadeiros, sorrisos falsos, vitórias, derrotas, nascimentos, enterros, aniversários, casamento, divórcio, esperanças, frustrações, angustias, momentos coloridos e em branco e preto.

Sol a pino enxergou sua pequenez – não passava de um mísero pontinho desprezível, suado e sedento, em meio a um canavial sem fim.

Que catarse! Mescla de nojo e euforia - de morte e nascimento.

Ao final, a certeza que o último passo desta caminhada, também seria o primeiro de uma nova vida, de um novo ser, de um novo Caminho.

 

José Palma

Idealizador do Caminho do Sol

e-mail: palma @caminho do sol.org

 

 

 

São Pedro, 13 de outubro de 2012

 

Benefício indireto

 

Muitos são os motivos que atraem as pessoas para dar este grande mergulho para dentro de si mesmo.

Mas as primeiras decepções ocorrem ainda durante a Palestra Orientativa, que obrigatoriamente antecede as inscrições - quando os futuros peregrinos são informados que o caminho não emagrece.

Então vou caminhar mais de oito horas por dia e não vou emagrecer nenhuma graminha? – perguntam decepcionados.

Não, não vai emagrecer - porque durante a jornada come-se muito bem – você irá experimentar até aquela comidinha feita em fogão a lenha – uma delícia!  explica nosso peregrino/voluntário/palestrante.

Outro susto enorme ocorre quando são informados sobre a “perda da privacidade” – sim, os albergues não dispõem de apartamentos exclusivos - a convivência é coletiva e aí reside um dos maiores aprendizados do Caminho - a descoberta que somos seres humanos!

Para finalizar, ficam sabendo que as pousadas são extremamente simples – amadoras – muitas só abrem suas portas para nos receber - não são estabelecimentos comerciais.

Corre-se até o risco de tomar um banho frio, caso a resistência do chuveiro queime – as pousadas não possuem um depto de manutenção.

Cientes de todos os detalhes, felizmente a grande maioria desiste na palestra, portanto - quem vem ao Caminho sabe exatamente o que quer e o que irá encontrar nestes inexplicáveis onze dias de caminhada.

Os benefícios são pessoais e variam de pessoa para pessoa.

Autoconhecimento, contato com a natureza, momentos de reflexão e introspecção, despertar da religiosidade, preparar-se para o Caminho de Santiago, etc...

Durante a cerimônia, o marido que foi receber a esposa pede para usar a palavra.

__Não tenho como agradecer o benefício que este Caminho me proporcionou – não agüentava mais a pressão de minha mulher, para reformar a cozinha e os banheiros de casa.

Depois de muita conversa, decidimos então por fazer a reforma, mas – confesso – o custo estava me tirando o sono, então pedi para ela vir ao Caminho, enquanto eu ultimava as providências para dar início a obra.

Depois de nove dias ela me ligou e disse:

__Marcio, esquece a reforma - nossa casa é maravilhosa – a cozinha é fantástica e os banheiros perfeitos.

Adeus vaidade.

Viva o Caminho!

 

José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E-mail: palma@caminhodosol.org

 

 

São Pedro, 26 de setembro de 2012

Adeus concorrência

Muitos caminhantes chegam até nós movidos pela curiosidade e o forte desejo
de um dia poder percorrer o tradicional Caminho de Santiago – sonho sonhado,
de quem um dia pretende cruzar o oceano, pisar aquelas terras sagradas e
deixar suas pegadas ao longo de um solo bíblico, ininterruptamente marcado -
passo a passo - ao longo dos últimos 1.200 anos.

Por muitas razões, peregrinar por aquelas bandas - desde sempre nunca foi
uma tarefa fácil.

Se antes os perigos eram as guerras, o domínio territorial dos mouros, os
saqueadores e as doenças – hoje outras e muitas barreiras apresentam-se aos
futuros peregrinos.

Há que se ter muita garra, fé e determinação para enfrentar o desafio.

Nestes tempos que a internet deu outra dimensão a nossa dimensão, os
obstáculos passaram a ser outros.

O futuro peregrino tem que vencer a enorme batalha da vaidade, da falta de
tempo, da vergonha de perder a privacidade, do medo do despojamento
material, da timidez religiosa e o maior de todos, abrir mão da escravidão
que o conforto nos proporciona - acionar um controle remoto pode abrir ou
fechar uma cortina - um leve toque no mouse coloca o mundo e os serviços a
nossa disposição – antes de chegar em casa - dentro do carro – pode-se
acender a luz de qualquer cômodo, ligar a televisão e o ar condicionado –
veículos com câmbio automático, vidro e espelho elétrico, sensor de
estacionamento, visor de marcha à ré, GPS e vai por aí afora.

Tudo para aumentar nosso conforto, esvaziar nosso bolso e acumular calorias.

E na hora de vestir a mochila e caminhar oito, nove horas por dia, como é
que fica?

O Caminho não tem ar condicionado nem esteira rolante...

Aí temos que tirar o chapéu para esta brava gente - que mete o pé na jaca -
mergulha fundo em busca de seus objetivos e eleva seus sonhos a categoria de
realidade.

Este valente peregrino durante nosso cafécomprosa, orgulhoso exibe uma foto
sua de quatro anos atrás e 57 kg mais gordo – simplesmente irreconhecível.

Conta-nos um pouco sobre seu passado de luta, perseverança e obstinação para
atingir seus objetivos e destacar-se em tudo que realizou ao longo de sua
vida – nascido em uma família de trabalhadores humildes, com muito
sacrifício formou-se engenheiro civil - atualmente é Diretor do Depto de
Estruturas de uma das mais renomadas Universidades de Engenharia do País,
tem em seu currículo a publicação de 12 livros, dois dos quais dedicados a
projetos estruturais para Hidrelétricas, ministra cursos e palestras em todo
o Brasil e fora dele.

Revela-nos o grande segredo de seu sucesso.

Diz ele:

__Procure fazer o impossível, assim você terá poucos concorrentes.

José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E-mail: palma@caminhodosol.org

 

 

 

São Pedro, sábado, 8 de setembro de 2012

 
Que doidera
 
A partir do quarto ou quinto dia de caminhada, a vida começa a ficar muito mais simples.
Conviver diariamente, vinte e quatro horas com os companheiros de jornada, dividindo momentos alegres, tensos, de certezas, de dúvidas, de tristeza e até mesmo a perda de alguma privacidade tem muitos aspectos positivos.
Concluir que somos todos humanos, com desejos e necessidades – quase sempre, muito próximas ou semelhantes.
Na verdade somos todos muito diferentes, embora sejamos absolutamente iguais.
Dividir, sonhos, alegrias, angústias, decepções, realizações, frustrações, defeitos e qualidades mostra-nos o quanto a dimensão de nossos problemas é diminuta.
Perder a blindagem que no protege, deixar a vaidade e os devaneios a beira da estrada, conecta-nos com nossa essência.
Entre outras coisas libera a criança interior, adormecida pela fantasia dos personagens que somos obrigados a interpretar.
O mesmo profissional exigente e responsável deve ser dócil com seus colaboradores, porque no papel de marido precisa ser romântico e calmo enquanto digere os sapos que engoliu na vida corporativa - o pai amigo, também aplica corretivos - afinal as contas do mês estão tocando a campainha, enquanto os recursos ainda estão sendo perseguidos, uma inesperada reunião fora do País pode cancelar aquela viagem programada e explicar isto à família é tão ou mais difícil que enfrentar a adrenalina de um cliente insatisfeito ou de um chefe rabugento.
E a mulher então – mãe, esposa, trabalhadora ou executiva, deve fazer as compras do mês, a gestão da casa, sem permitir que as horas longe do lar enfrentando os malabarismos da vida empresarial, interfiram no convívio familiar, porque precisa encerrar a reunião e correr para buscar os filhos na escola, ir ao cabeleireiro e não chegar atrasada para o jantar na casa não sei de quem - mesmo tendo que contar historinhas para o filho caçula dormir.
E nossa criança interior fica acorrentada a escuridão da alma esperando o dia da libertação – descolar-se das sombras revelando a naturalidade de nossos atos - sem bloqueios e em toda a sua a plenitude.
Livre, leve e solta, a criança interior exibe sua carta de alforria – sem amarras esparrama-se e mostra sua peraltice exibindo uma inocência adulta.
As sinecuras desta inesperada liberdade e balbúrdia ao longo do Caminho receberam uma engraçada definição.
Ao final, nosso peregrino entre um gole de café e uma mordida no tradicional bolinho de chuva, daquela pousada – falando sobre o fenômeno destas mudanças que transformaram o homem sério em uma criança sapeca, que empinou pipa, subiu em arvores, riu a pregas soltas - como há muito não acontecia - contou piadas, rodou pião, enfiou a cara na melancia, lambrecou-se comendo mangas e chupando cana.
Respiração pausada, mãos no bolso, olhar perdido, sorriso maroto - sapecou seu veredicto:
__Este Caminho é um sanatório a céu aberto.
 
José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E-mail: palma@caminhodosol.org

 

 

 

São Pedro, sábado, 25 de agosto de 2012
 
Uma longa briga
 
Quando a quantidade de nossos passos se transformarem em uma coleção, quando a contabilidade dos kilometros acumular muitos zeros, quando as subidas e descidas ao longo do Caminho não mais nos assustarem.
Quando a quietude passar a ser nossa fiel companheira, quando o azul do céu, as nuvens, as flores e as borboletas abafarem as dores do corpo.
Quando o canto dos pássaros for mais importante que as bolhas nos pés.
Quando percebermos a doce harmonia da natureza e entendermos que observar for mais importante que criticar - é sinal que estamos polindo a alma e começando a decifrar os enigmas da vida.
É o árduo aprendizado de todos nós, que via de regra vem marcado pela dor e não pelo amor.
Assim é no Caminho, assim é em nossas vidas.
Por que fazemos esta escolha é a pergunta que não quer calar.
Mas nosso valoroso caminhante ao fazer suas reflexões descobriu sentimentos diferentes e um caminho totalmente novo.
Machucou-se muito.
Feridas abertas pela desconstrução de conceitos e verdades que agora desmoronam sob seus pés - lembranças doídas de quem jamais olhou além do próprio umbigo.
Fazem sangrar um sangue incolor - provocam dores na matéria e na essência - deixando cicatrizes invisíveis.
Revela este nosso herói que foi uma longa luta, uma verdadeira briga de foice.
Aprendeu a valorizar pequenos detalhes e prestar atenção aos sinais, deixou de louvar o sofrimento, permitindo que a luz do sol e as sombras da vida o iluminassem.
Chorou um choro triste e nem sempre contido, ao lembrar o quanto esteve distante do convívio familiar – imaginava que sua presença e sua atenção eram mais importantes na empresa.
Quantas vezes valorizou as contrariedades, decepções e a tristeza, permitindo que os problemas superassem as inúmeras alegrias, viagens de lazer e os inúmeros momentos de felicidade.
Quantas vezes ignorou o essencial.
Quantas vezes não enxergou o óbvio.
Quantas vezes deixou de viver.
Dava extrema importância aos fatos negativos e não percebeu que a chave da felicidade estava em suas mãos – bastava abrir a porta.
Ah! Se pudesse voltar no tempo...
Ele e todos nós.
Ao final soube reconhecer e desfrutar os ensinamentos de sua jornada percebendo que crescer com as dificuldades pode aprimorar e lapidar nosso ser.
Estava feliz, extremamente feliz.
Entendeu que não podemos ou não devemos entregar nossa felicidade aos pequenos dissabores.
Desfrutar este aprendizado, saber digerir as amarguras - degustá-las e transformá-las em sabedoria, significa vencer esta longa briga – significa querer ganhar a difícil batalha em busca da paz interior.
Não é um caminho fácil.
Não é um caminho para qualquer um.
Assim como o aço de boa qualidade, este aprendizado só pode ser adquirido nos contrastes do Caminho e da vida.
 
 
José Palma
Idealizador do Caminho do Sol

E-mail: palma@caminhodosol.org

 

 

São Pedro, 18 de Agosto de 2012

O que é isto

Esta incrível experiência de entregar-se ao Caminho e deixar fluir a vida, é
mesmo coisa para quem tem um parafuso a menos.

A decisão de abandonar o conforto do lar, transformar o armário em meia
dúzia de coisas socadas na mochila - saber que a perda da privacidade será
algo inevitável ou até mesmo a possibilidade de tomar um banho frio; é
considerada por muitos, como absoluta demonstração de insanidade.

Empunhar um cajado e sair por aí dando um monte de passos requer muito mais
que o simples desejo de caminhar.

Como já ouvi:

__ Issu é codiloco sô!

Tem que ter garra, fé e determinação para encarar os momentos de
despojamento material, esforço físico e tudo mais que vier pela frente.

No início o receio do desconforto, a insegurança e a incerteza de chegar ao
final, pesa na mochila e dá um friozinho na barriga.

Assim, a cada dia seguem vencendo os medos, deixando-os pelo caminho - para
que sigam uma carreira solo – bem longe!

Durante o 8º dia de caminhada, debaixo de um sol de raxar mamona, quando
suor e poeira emprestam ao semblante um aspecto rude e melado - olhar e
audição tragados pela paisagem e pela introspecção.

O toc... toc... toc... do cajado insiste em dar uma cadência preguiçosa, aos
passos que conduzem ao êxito.

A brisa – invisível – trás uma sonoridade - uma similitude musical - ainda
não se consegue distinguir com clareza, ora parece o canto esquisito de um
pássaro poliglota, ora parece não sei o que.

Ouvidos apurados tentam decodificar o que está acontecendo.

Avançam uns metros e imaginam ouvir... uma ópera!?

A expectativa e a curiosidade aceleram passos e batimentos, a cada metro
começa a definir-se algo incrível, dando a sensação de não estarem
fisicamente ali - pisando aquele chão; Desenham-se olhares desconfiados e
expressões que fazem contrair os músculos da alma.

Cozidos pelo calor escaldante de um sol que insiste em acompanhá-los - temem
por um delírio.

Ao redor - o verde vazio - trezentos e sessenta graus de puro canavial
preenchem o espaço.

Alguns palmos adiante “La Traviata” acaricia os ouvidos, que minutos antes,
só ouviam o silêncio.

A ópera: Brindise.

Prosseguem pé ante pé e chegam a Mata do Pinheiro.

Lá dentro – uma nuvem repleta de anjos distribuindo sorrisos, oferecendo
abraços, frutas, sucos e sanduíches.

Brindise - um brinde a amizade ao amor e ao prazer.

Viva Verdi!

 

José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E-mail: palma@caminhodosol.org

 

São Pedro, sábado, 28 de julho de 2012

 

Parabéns a vocês

Apagar velinhas não é somente dar um sorriso, encher os pulmões e assoprá-las de uma só vez.

É também o momento para um balanço interior, para reflexões e para muitos agradecimentos.

Esta semana recebi um exemplar do livro “Legado do Caminho do Sol”, escrito pelo peregrino Adilson Milan – que já está acomodado na prateleira das livrarias.

Esta obra soma-se aos livros – “Caminhos que Nunca Terminam” escrito pela peregrina Fabiana Passos, “Onze Dias, Onze Noites” escrito pelas peregrinas Sandra Alves e Suely Paschoalon,” Caminho do Sol – uma vivência transformadora” escrito pelo peregrino Gustavo Boog,” O Peregrino do Caminho do Sol” escrito pelo peregrino Carlos Carvalho Cavaleiro, “Relatos de um Cajado” escrito por este peregrino, costureiro de letrinhas.

Seis livros - marca confortável que mostra a dimensão dos efeitos que ficam gravados no coração e na alma das pessoas que vivenciam esta experiência e fazem questão de dividi-la com que já deixou suas marcas na estrada, ou está com caraminholas na cabeça.                                  

A estas comemorações junta-se a alegria de ter sido este Caminho, o grande responsável pela realização do VI ENAP – Encontro Nacional de Peregrinos, que reuniu mais de 500 participantes, vindos de todo o Brasil, Áustria, Espanha, Itália, Japão e Portugal e mais de 3.000 visitantes.

Uma confraternização internacional, que além de deixar os visitantes encantados com o charme e qualidade de vida de Águas de São Pedro, teve repercussão na mídia, com matérias veiculadas na REDE GLOBO, jornal ESTADO, site UOL e um Caderno Especial do jornal TRIBUNA - todos promovendo e divulgando este pequeno paraíso.

Paraíso que também assoprou todas as 72 velinhas para comemorar sua nova idade - no mesmo 25 de julho – dia do aniversário do Caminho do Sol e dia consagrado ao Apóstolo São Tiago - hoje padroeiro da Estância de Águas de São Pedro.

Portando com a mochila carregada de alegria temos muito a agradecer.

Agradecer o carinho e prestígio destes 10.000 peregrinos que já o percorreram - porque sem suas pegadas não haveria Caminho.

Agradecer o acolhimento proporcionado pela Igreja – primeiramente através do Padre Ronan e desde muito até agora, através do Padre Antonio – ambos peregrinos - que carinhosamente recebe nossos caminhantes renovando e fortalecendo a Fé e o sentimento cristão, ressuscitando o verdadeiro sentido que deve ter o sacrifício de uma peregrinação.

Agradecer ao Poder Executivo e ao Poder Legislativo, Secretários Municipais, servidores e funcionários de todos os níveis que tanto colaboram conosco e compreendem nossas limitações.

Agradecer aos hotéis, pousadas e comércio em geral, que sempre guardam um carimbo, um brinde e um abraço afetuoso para entregar a estes modernos bandeirantes, que bravamente caminham em busca da riqueza interior.

Agradecer ao povo acolhedor e hospitaleiro desta cidade, que jamais lhes negou sorrisos e especial atenção.

Que o início deste novo ciclo traga a todos, muitos motivos para sorrir.

 

José Palma

Idealizador do Caminho do Sol

E-mail: palma@caminhodosol.org

 

São Pedro, sábado, 30 de junho de 2012

 
 
Procura-se
 
Conviver com este fantástico universo peregrino faz parte de minha rotina - um invejável aprendizado, além do privilégio de poder ouvir os relatos destes valorosos que ao chegarem a Casa de Santiago fazem reverberar efusivamente o Sino da Glória.
Emocionados tocam o sino - mérito exclusivo dos peregrinos que concluem o Caminho do Sol.
Cada qual ao seu jeito e no seu tempo - a verdade é que ninguém sai impune aos efeitos destes fantásticos onze dias de caminhada.
Livres das couraças do dia a dia, durante a jornada temos a oportunidade de entrar em contato com nossa essência.
Alegrias, tristezas, sorrisos, lágrimas, fé, dúvidas, ressentimentos, perdão, certezas e muitos outros sentimentos passam a conviver no mesmo corpo, na mesma alma, no mesmo Caminho.
Algo difícil para se destilar de uma só vez – afinal um ajuste de contas desta magnitude levaria alguns anos de terapia convencional.
Entre os muitos achados, o mais importante é o provável encontro consigo mesmo - tarefa nem sempre fácil, mas geralmente dolorida.
Ao final da caminhada estas criaturas não serão mais aquelas que deram os primeiros passos 240 km e onze dias atrás.
Existem muitas descobertas entre a história escrita pelos bandeirantes, a partir de Santana de Parnaíba e as badaladas no Sino da Glória em Águas de São Pedro, que nossa vã filosofia possa imaginar.
Ter a coragem de olhar o espectro de nossa alma pode identificar grandes defeitos e corrigir imperfeições.
Tem quem encontrou e guardou uma pedra com formato de coração e tem também quem abandonou um coração de pedra.
Tem quem não sabe o que procura e tem quem procura o que não sabe.
José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E-mail: palma@caminhodosol.org

 

 

 

 

São Pedro, sábado, 16 de junho de 2012

 

Via Crucis

 

A forte dor no corpo mesclava-se a outras dores.

O joelho esquerdo latejava muito e não deixava a alma buscar seus sonhos.

Acordado acompanhava a variedade de sons e movimentos de seus companheiros que dormiam a sono solto.

Que baita inveja!

A Via Crucis seguia uma seqüência que se alternava madrugada adentro, seu desenlace acompanhado e seu desfecho perfeitamente previsível.

Vejam o que uma noite de insônia é capaz de revelar!

Um dos peregrinos começa uma batalha inconsciente entre a vontade de fazer xixi e a preguiça de levantar-se.

O inquieto dorminhoco vira-se de um lado para outro balançando toda a estrutura do beliche - deixando em polvorosa o morador do térreo - temendo que o mundo desabe sobre sua cabeça.

Um ciclo que pode demorar mais de uma hora para atingir o pico da indecisão – quando então começa a liturgia para descer e sair em busca do banheiro mais próximo.

Seguem-se movimentos que se desenrolam no escuro em meio a inúmeros tropeços durante o trajeto que o conduzirá ao paraíso.

Terminado o xixi vem outro desafio – agora - no caminho de retorno ao leito onde seu soninho estava dormindo - tem início a saga que o conduzirá de volta ao andar superior do beliche - onde após alguns minutos de “vira e mexe” pega um novo atalho para reencontrar seu sonho.

A esta altura outro peregrino começa sua briga do “xixi versus preguiça de levantar-se”.

E assim segue a procissão – depois de muitos xixis e dezenas de carneirinhos pulando a cerca, devidamente contados um a um, nosso eficiente vigia adormece.

Mas infelizmente nada é perfeito neste universo humano - o que era pedra vira vidraça e chega sua hora – ao perceber um certo desconforto.

Vira pra lá, vira pra cá...

Mas não consegue escapar - tempo depois chega ao ápice da indecisão - ou levanta ou explode - sai em busca do banheiro para entregar seu pedido.

Obedecendo a regra de respeitar o sono do próximo – cuidadosamente ele segue na escuridão do quarto - vai e volta tropeçando em cajados, pisando em mochilas e apalpando cada centímetro do caminho que o conduzirá ao seu beliche.

Vira pra lá, vira pra cá, até encontrar a seta que o levará aos braços de morfeu.

Mas... alguém o sacode falando bem dentro de seus ouvidos:

__Marcio levanta - está na hora de acordar - o caminho nos espera.

Oh! vida.

Oh!céus.

 

 

 

 

São Pedro, sábado, 02 de junho de 2012
 
 
Raro sanctificatur
 
Alguns poucos peregrinos acreditam que caminhar incessantemente seja a garantia para ter direito a um cantinho lá no céu – provávelmente ao lado do Criador.
Nosso personagem assim como todos nós, tem muitos defeitos e algumas qualidades – carrega em sua mochila uma pesada carga pela soberba dos milhares de kilometros caminhados.
Esta grande tribo de semeadores do bem é composta pela mesma estratificação humana que povoa nosso planeta; existem peregrinos introspectivos, alegres, falantes, calados, espirituosos, sérios, católicos, budistas, espiritualistas, yogues, de outras religiões e a grande maioria - homens e mulheres que simplesmente querem caminhar e estar em contato consigo e com a natureza.
Mas nem tudo são flores neste jardim peregrino – existem muitos e variados espinhos neste aprendizado, um deles – pequeno e inofensivo - é a pessoa que sabe tudo, que entende de tudo e literalmente pisa em cima de quem queira ou não ouvir suas infindáveis catilinárias.
O caminhante que inspirou este artigo, desde logo revelou sua atitude soberana graças ao conhecimento e experiência adquiridos pela enorme quantidade de passos dados nos muitos caminhos deste mundo e pelos milhares de quilômetros que caminhou.
Sem sombra de dúvida um currículo raro e invejável, mas um caminhante para tornar-se peregrino precisa ter muito mais que um punhado de credenciais carimbadas – mesmo deixando suas pegadas em solos sagrados - caminhar é muito mais que dar milhões de passos no Brasil, Espanha, França, Itália, Portugal, Japão, Vietnã e Jerusalém.
Há que se colocar na mochila, uma boa carga de humildade, amor, fé, compreensão, fraternidade, uma tonelada de reflexões e diversos itens que ninguém nos conta antes - é preciso descobri-los por si só e para isto o ato de caminhar é uma das melhores e mais eficientes ferramentas para lapidar a alma.
Convicto que sua coleção de quilômetros o transformou em um ser diferenciado seguiu durante todo o percurso enaltecendo seus conhecimentos com uma enfadante falácia sempre ouvida por um persistente silêncio – este sim um comportamento verdadeiramente peregrino.
Ao final um dos caminhantes, alvo principal de sua metralhadora verborrágica encerrou seu depoimento com uma frase contundente, tirada não sei de onde:
“Qui multum peregrinatur raro sanctificatur”
Apertando-se a tecla SAP - fica assim:
“Quem muito peregrina raramente se santifica”
 
José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E-mail: palma@caminhodosol.org

 

 

 

São Paulo, sábado, 19 de maio de 2012

 
Um exemplo a seguir
 
O Centro de Convenções de Águas de São Pedro foi palco para a realização do VI ENAP – Encontro Nacional de Peregrinos – que aconteceu entre os dias 28 de abril e 1º de maio.
Com alegria constatamos o quanto este evento foi proveitoso para a cidade, visitantes, turistas, comerciantes, restaurantes, rede hoteleira, peregrinos e convidados.
Tivemos a participação de diversas cidades e Estados do Brasil, fato que gerou muitas estadias e situações para consumir bens e serviços.
A farta divulgação do ENAP e a excelência da cenografia para a realização da 1ª Feira Temática sobre caminhos & caminhantes atraiu um público estimado em mais de seis mil visitantes.
A participação da Secretaria de Turismo do Estado de São Paulo, assim como a vinda de peregrinos e comitivas da Áustria, Espanha, Itália, Portugal e Japão, somadas a presença da TV GLOBO, ao artigo publicado no jornal Estado de São Paulo, na VEJA online e no jornal TRIBUNA - mostram a assertividade de uma ação que gerou mídia e divulgou nossa pequena e charmosa Águas de São Pedro – sem que o poder público ou qualquer entidade da cidade tivesse que gastar um tostão sequer.
Com a mochila repleta de alegria agradecemos as presenças do Prefeito de Molina Seca – Espanha - Sr Alfonso Arias, que veio especialmente para a cerimônia de assinatura do irmanamento entre as cidades - que prevê também o intercâmbio cultural, gastronômico e turístico para jovens e para a 3ª idade – fato que se tornou em um dos importantes momentos do ENAP.
Do Sr. Celestino Lores, Presidente da Fundação do Caminho de Santiago – Portugal.
 
 
 
Do Sr Alfredo Pérez, hospitaleiro em Molina Seca e coordenador do Museu das Peregrinações – Espanha, que formalizou o convite ao Caminho do Sol, incluindo-o entre os diversos Caminhos que dele irão participar.
Do Sr. Acácio Paz, fundador da Associação Passo a Passo e hospitaleiro do albergue em Villoria de Rioja - apadrinhado por Paulo Coelho.
Do Sr. Cesar Acero, hospitaleiro em Calzadilla De La Cueza, representando o Presidente da RED de Albergues do Caminho de Santiago.
Da presença da Sra. Carmen Ollero, representando a Universidade Santiago de Compostela.
Agradecer também aos que trabalharam para o sucesso do ENAP, em especial ao Prefeito Paulo Borges, aos funcionários da Prefeitura, aos Secretários de Educação e Turismo, que nos emprestaram todo seu esforço, ao Padre Antonio Portillo que nos facilitou todos os meios e recursos para a celebração da Missa e os ofícios religiosos, ao Coral Vida em Plenitude, a todos os vereadores da Câmara Municipal, pela rápida e unânime aprovação do projeto de Lei que regulamentou o irmanamento entre Águas de São Pedro e Molina Seca demonstrando mais uma vez a compreensão do poder legislativo com ações que tragam benefícios à nossa cidade.
Como no Caminho demos o 1º passo.
Os próximos...
 
José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E-mail: palma@caminhodosol.org

 

 

 

São Pedro, sábado, 10 de março de 2012

 

Benefícios da paciência

 

Quando abandonamos o tobogã de emoções de nosso dia a dia e nos livramos da pressão a que estamos sujeito - quando abrimos mão do conforto de nosso lar e criamos um espaço só para nós, temos a possibilidade de escorregar para um novo mundo -  viver uma nova realidade e o que é melhor: descobrir um novo “eu”.

Nas grandes cidades deslocamo-nos de carro na doce ilusão que chegaremos mais rápido.

Ledo engano!

Mas não nos damos conta - pois para enfrentar a tensão dos congestionamentos ligamos o ar condicionado, o rádio, falamos ao celular, enviamos e recebemos e-mails, tomamos ciência de notícias boas, outras nem tanto e muitas ruins, discutimos, alteramos a agenda e tempo depois... muito tempo depois, chegamos ao nosso destino.

Se tivermos muita sorte, com pouco atraso.

Ao caminhar entramos em contato com a serenidade.

Não importa a distância, o caminho deve ser feito dando-se um passo de cada vez - um após o outro.

Começa ai a desconstrução, que tanto falo.

Aos poucos vamos aprendendo a lidar com os sentimentos de pressa e ansiedade - um complexo trabalho de reengenharia mental. Via de regra estamos conectados a internet ininterruptamente, seja no trânsito, em casa, no consultório ou no escritório comunicamo-nos incessantemente com o mundo, tudo acontece em segundos – enviamos uma mensagem e em poucos segundos já temos o retorno e em seguida respondemos alimentando esta roda sem fim, que nos massacra e nos leva para uma areia movediça, que não nos deixa perceber que nossos filhos cresceram, que nossos cabelos caíram e que a barba ficou branca.

A vida corporativa não nos permite fazer uma coisa de cada vês, somos condicionados a ser pró ativo.

No caminho tem sol, céu, luz, arvores, nuvens, sombras, flores, borboletas e pássaros que voam e o principal: temos tempo para curtir e apreciar a natureza exterior e enxergar a natureza interior.

Um relax compulsório!

Uma ilha sem computador, telefone e cliente para reclamar.

E nesta reeducação aprendemos que a hora tem sessenta minutos, que podem ser degustados de forma prazerosa e com sabedoria ao invés de engoli-los esbaforidamente.

Ao final de meu caminho, almoçando em Santiago na Casa Manolo, um peregrino argentino disse-me:

__Brasileiro, o caminho nos ensina que a paciência traz resultados imediatos.

José Palma

Idealizador do Caminho do Sol

e-mail: palma@caminhodosol.org

 

 

São Pedro, sábado, 25 de fevereiro de 2012

Vendedor de sapatos

O universo dos seres humanos é algo imponderável,

inexplicável e para exagerar mesmo eu diria inenarrável, face à multiplicidade de ações, reações e interpretações que cada situação pode gerar.

Pessoas vivendo os mesmos momentos, oportunidades ou situações têm reações e comportamentos completamente diferentes.

Conviver com as diferenças de forma harmoniosa e produtiva é de fato uma lição de sabedoria.

Este grupo foi um exemplo vivo deste variado leque de comportamentos, atitudes e valores.

Um toró de teses, tratados e divagações durante onze dias!

E tudo numa boa.

As discussões iam desde a posição das setas, pousadas localizadas no final das subidas, pensamentos escritos nos cajados, localização das “nuvens”- que são surpresas preparadas por voluntários conhecidos como “anjos do caminho”, variedades da alimentação nos albergues – alguns reclamavam que era muita comida (!) e por aí afora.

Lá pelas tantas durante nosso cafecomprosa, uma peregrina nos contou a seguinte estória:

Um vendedor de calçados foi designado para vender seus produtos numa aldeia indígena e ao chegar lá, voltou quando viu que ninguém usava sapatos e que talvez fosse “pregar no deserto”.

Ao regressar, outro vendedor entendeu este fato, como uma excelente oportunidade de realizar muitas vendas atraindo novos clientes - aceitou o desafio e depois de muito trabalho e dedicação, obteve resultados surpreendentes.

Concluiu nossa peregrina:

O Caminho é uma oportunidade para se vender sapatos a quem não usa – cabe a cada um perceber e aproveitar a oportunidade.

Não é?

 

José Palma

 

 

 

 

 

São Pedro, sábado, 28 de janeiro de 2012

 
Setas invisíveis
 
O caminho é como a vida.
E nesta nossa passagem pelo Caminho, tem coisas que vemos e coisas que não vemos.
Muitos peregrinos não conseguem de imediato - captar, enxergar, perceber ou entender fatos, situações ou até mesmo sentimentos, em toda a amplitude e simplicidade com que se apresentam.
Afinal, somos simplesmente complexos - por fora e por dentro!
Já ouvi alguém botar defeito no longo bico do tucano e não maravilhar-se com a esplendorosa arquitetura de seu projeto.
Não raro, enxergamos somente o que nos salta aos olhos e descuidamos da alma que se projeta na harmonia do conjunto.
Olhamos para a montanha com a galhardia de quem daqui a pouco irá vencê-la e torcemos o pé no buraco bem debaixo do nosso nariz.
Um contra censo próprio de uma espécie que só olha para o próprio umbigo.
Os caminhantes tem uma enorme preocupação em encontrar as setas amarelas – sinal do caminho certo.
O que seria simplesmente um indicativo pode tornar-se uma obsessão e sua busca alucinada - um impeditivo para perceber as inúmeras e verdadeiras belezas do Caminho – nosso real e verdadeiro aprendizado.
A capacidade de transformar a serenidade do olhar em um torneio de “caça ao tesouro”.
Conta-me esta peregrina, que conseguiu perceber as verdadeiras setas – estas sim – indicando o bom caminho.
Enxergou nos sorrisos, a seta que indica o caminho do amor.
Nos abraços, a seta que indica o caminho da amizade.
Nos hospitaleiros a seta que indica o caminho do acolhimento.
Nos anjos do caminho a seta que indica a fraternidade.
Nas pousadas a seta que indica o caminho da simplicidade.
Conseguiu enxergar setas e decifrar sinais, que certamente mudarão sua vida e seu caminho.
Concluiu sua jornada, curada da cegueira que não lhe permitia enxergar o que seus olhos não podiam ver.
Subidas planas, caminhos esburacados - sem um buraco sequer, curvas repletas de lindas retas e por aí afora...
O caminho não está na estrada – o caminho está dentro de cada um de nós!
 
José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E-mail: palma@caminhodosol.org
 

 

 

Águas de São Pedro, sábado, 14 de janeiro de 2012

 Braços e abraços

Assim como dimensionamos os Caminhos em quilômetros ou passos – o ano tem
sua medida em meses, semanas, dias ou horas – tudo uma questão de padrão ou
de precisão.

Na verdade são critérios para estabelecer o começo, meio e fim dos muitos
ciclos que acompanham nossa passagem por este universo de consumidores e
consumidos.

Para nós peregrinos cabe aqui algumas reflexões, que agora não vêm ao caso.

O primeiro cafécomprosa de 2012 foi animado e entre os causos deste
caminhodemeudeus, o que meu cajado selecionou, revela mais um pouco das
peculariedades do mundo peregrino e as lições que o Caminho nos ensina.

Esta peregrina me recebe com um forte abraço e relembra nosso encontro na
pousada onde começa o Caminho do Sol, quando me revelou sua dificuldade em
ter uma aproximação corporal com as pessoas por ocasião da formalidade de
apresentação.

Ao cumprimentar alguém sempre deixava o braço estendido - com esta postura
conseguia manter uma certa distância evitando assim que o interlocutor
invadisse sua “área de intimidade”.

Abraço então nem pensar – tinha arrepios só em imaginar o corpo de um
desconhecido próximo ao seu.

Começa o Caminho do Sol e lá vem este tal “abraço peregrino” - foi logo me
avisando e se desculpando:

__Por favor, me poupe, não me leve a mal, mas detesto abraços.

Onze dias depois, ao chegar a Pousada para tomar nosso café dominical,
recebo dela um abraço peregrino seguido de justificativas.

­­__Palma aprendi a abraçar, como é gostoso!

Aprendi a sorrir, a perdoar, a ficar comigo, a curtir as coisas simples.

Aprendi a ouvir o canto e o encanto dos pássaros, a olhar o céu e contemplar
a geografia das nuvens.

Mas principalmente aprendi a viver e conviver com os seres humanos.

Hoje aprendi a receber o calor de um abraço peregrino.

Sei o valor e a importância do braço amigo.

Dos braços que me ajudaram nos momentos difíceis.

Dos braços que me socorreram, quando as pernas me faltaram.

Dos braços fraternos que foram buscar a água que secou.

Dos braços que abraçam.

Como é bom!

 

 

 

 

Águas de São Pedro, sábado, 24 de dezembro de 2011
 
Desistir a cada dia
 
Confessou jamais ter caminhado - nem mesmo tinha o hábito de dar aqueles passinhos econômicos até a padaria ou uma esticadinha de duas quadras até o jornaleiro.
O enorme sofá diante da TV Plasma de muitas polegadas e o controle remoto, faziam parte de sua rotina e preenchiam boa parte de seu merecido ócio.
Tanto conforto e imobilidade trouxeram como conseqüência uns quilinhos extras para carregar como sobre peso.
Orgulhosa contou que no Shopping substituía a energia de caminhar, pela energia dos carrinhos elétricos, onde descarregava seu crédito em tudo que podia carregar, não importando se precisava ou não.
Em novembro de 2011, quando leu na revista Claudia um artigo sobre a experiência que uma mulher da sua idade vivenciou no Caminho do Sol - sem saber por que - sentiu um forte desejo de  percorrê-lo.
A esta altura achou que seria cauteloso tomar um bom banho - esfriar a cabeça e refazer seus pensamentos.
Seguiu para o Shopping, pois algo não ia bem e precisava respirar um pouco de ar condicionado e ver vitrines – afinal estes pensamentos sobre caminhadas, contato com a natureza, momentos de reflexão, pousadinhas simples com beliches coletivos não faziam parte de seu confortável e pacato universo.
Para sua surpresa, não pegou o carrinho elétrico e resolveu caminhar com suas próprias pernas – horas mais tarde, ao voltar para casa - além de algumas dores, sentiu um estranho prazer e uma gostosa sensação de bem estar.
Dias depois lá estava ela debaixo de sua mochila nova, percorrendo a 1ª etapa do Caminho do Sol, levando consigo a certeza que iria desistir quando chegasse a 1ª pousada, na pequena cidade de Pirapora.
Conseguiu e bravamente não desistiu!
E assim sucessivamente durante longos e penosos onze dias, a cada trajeto ela jurava para si mesmo que ao chegar à pousada seguinte iria desistir.
Lembrava a todo instante o que ouvira na palestra orientativa, antes de decidir percorrer o Caminho.
__Quando chegar à pousada, cansada e com muitas dores – achar tudo muito simples ou não gostar do dono, não tome nenhuma decisão.
Respire fundo, tome um bom banho, descanse, faça sua refeição, tire um soninho e deixe a decisão para o dia seguinte, quando estiver com a cabeça fria e livre do cansaço.
E assim passo a passo, conquistou uma vitória por dia, até chegar a Casa de Santiago em Águas de São Pedro.
Ao fazer seu depoimento falou sobre o aprendizado que o caminho lhe ensinara:
__Sempre desisti dos meus projetos, quando encontrava uma dificuldade ou algum obstáculo.
O Caminho me mostrou a importância da determinação – a acreditar em mim – a ser perseverante – a lutar por meus ideais e a caminhar na busca incessante de meus objetivos e de minhas vitórias.
Que tal  prezado leitor – vamos caminhar?
 
José Palma
Idealizador do Caminho do Sol

e-mail: palma@caminhodosol.org

 

 
SÃO PEDRO, SÁBADO, 10 DE DEZEMBRO DE 2011
 
O PREÇO DA ALMA
 
Despencou no meio deste grupo, quatro caminhantes vindos de Brasília.
Amigos íntimos incorporaram-se aos demais peregrinos e desde o início formaram uma turminha animada.
Estavam em busca de momentos de paz e contato com a natureza - algo que os aliviasse das tensões do dia a dia.
Moradores de uma cidade onde sonhos transformam-se em pesadelos e reis perdem a coroa dependendo da capa da VEJA – logo perceberam os benefícios que o difícil aprendizado de dormir em beliches instalados em alojamentos e a lidar com a perda da privacidade pode nos proporcionar.
Refeições simples – comidinha caseira – temperadas com muito amor-alimentam o corpo cansado e recompõe a alma peregrina.
Para quem não se chama Alice e não mora no país das maravilhas, ter ciência sobre o que se passa na “terra do faz de conta” é mais indigesto que comer jaca com cerveja.
Embora a língua seja a mesma estamos falando de outro mundo e de outra realidade – algo inimaginável para um simples contribuinte.
Entre um passo, um suspiro e um copo de água os relatos davam conta desde atitudes pouco pragmáticas, até o eco de um discurso mudo que poderia afetar bolsos e rasgar dignidades.
Não se mencionava nomes, mas comentavam-se situações.
Tudo muito claro, como um dia nebuloso.
Lá o terreno é próspero para as bancas que se instalam e seguro como o chão repleto de cascas de banana lançadas pelos micos que não são leões dourados.
Passo a passo o grupo prossegue em direção a Casa de Santiago.
Avançam os dias e nossos caminhantes coram a cada passo – o sol é forte e tosta a pele.
Estamos agora em meio ao nosso café com prosa, numa gostosa manhã de domingo do ano de 2009, os causos correm solto - de tudo um pouco e de tudo - pouco ou nada se salva.
Eurico – que abandonara a couraça do Dr. assumiu sua versão de ser humano e peregrino juramentado. Alegou não ter mais a mínima vontade de voltar para a cidade projetada pela genialidade e talento deste inigualável Oscar Niemayer.
A caminho de sua sexta década de existência e respaldado por uma confortável situação financeira, manifestou a intenção de comprar uma casinha em Águas, ou mesmo montar um albergue peregrino a beira do Caminho do Sol alegando que nele encontrou um mundo onde amizade, amor, fé, fraternidade e simplicidade são reações e valores que brotam de cada abraço – abraçado e de cada sorriso dado ou recebido.
Encerrou citando uma frase do polêmico empresário e Senador Wellington Salgado do PMDB de Goiás.
Segundo o Senador: ... O clima em Brasília estava tão pesado, que não se conseguia nem vender a alma ao diabo, porque tinha gente dando de graça.
Pois é amigo leitor, quem sabe caminhar seja a solução.
Haja caminhos!
 
José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E-mail: palma@caminhodosol.org
 
 

 São Pedro, sábado, 26 de novembro de 2011

A fortuna da essência

Peregrino amigo e companheiro de minhas caminhadas familiares precedeu - me
no caminho de volta ao Pai.

Nestas horas - a fé é um lenitivo para nossa dor, pois nos dá a certeza do
reencontro ao longo do caminho que um dia também trilharemos.

Embora possa parecer distante – o tempo não será muito, pois o relógio do
universo é diferente do relógio cuco, que até outro dia ornava as paredes da
casa da vovó, ou dos modelos atuais, que trazemos no pulso ou penduramos por
aí.

Que o digam os bilhões de anos que nos separam das eras primária, secundária
e terciária, dos temidos tiranossauros – ou mesmo do velho Cabral, que dias
atrás chegou por aqui.

Pele macia, semblante sereno – sinais evidentes - que seguiu seu caminho,
levando consigo a certeza da missão “muito bem” cumprida.

Diferentemente dos castelos e de toda riqueza material, impossíveis de
acompanhar o senhor feudal - ele levou consigo a fortuna de sua essência -
de seus valores, de suas obras, da sua postura diante da vida - sua lealdade
à família e aos amigos - sua humildade e a prática das orações.

Teria “El Rei” - com todo seu império - jóias e riquezas, credenciais
maiores para se apresentar ao Pai?

Quem estará levando a verdadeira riqueza?

Aquele que teve uma vida dedicada ao outro - que soube preservar seus
valores - que amou e respeitou sua família, amigos e a sociedade que o
recebeu.

Quem verdadeiramente é o pobre?

O que aqui deixa o registro de uma vida pautada por atitudes morais vivida
com ética e com a prática dos bons costumes-que soube cultivar verdadeiros
amigos e manter a família unida - ou aquele que passou seus dias somente
acumulando a prata, em nome da riqueza material e instrumento mor do
consumismo - alimentando sua vaidade pessoal e o culto ao umbigo.

Os Caminhos nos remetem a morte – para percorrê-los não levamos conosco
nossos títulos, bens materiais e tantas outras couraças que nos protegem em
nosso dia a dia.

Caminhamos somente com nossa essência – como o faremos quando chegar nossa
hora.

 

 

 

São Pedro, 29 de outubro de 2011

 
Baratas e carinhos
 
Recentemente realizamos uma caminhada somente com a participação de peregrinas - com o sugestivo título de “Saia no Caminho.”
O sucesso desta saga feminina, foi tão grande que a TV GLOBO, transmitiu a caminhada no programa ANTENA PAULISTA, apresentado aos domingos pelo jornalista Carlos Tramontina.
Dezoito corajosas mulheres empunharam seus cajados, vestiram suas mochilas, desafiaram seus medos e mostraram que garra e determinação não têm sexo.
Um caminho alegre, diferente - revestido de uma graça cor de rosa, que deixou nossas trilhas mais cheias de curvas e as árvores mais perfumadas.
O sol – cavalheiro - assumiu um tom mais suave e as nuvens decoradas com brincos brancos colocaram um brilho nos lábios.
Ladeira abaixo ou morro acima, tomando água ou comendo poeira, superaram galhardamente cada dificuldade que aparecia, sempre com um sorriso no peito e um caso para contar.
Caso - aliás, é o que não faltou.
Durante o jantar, ao final do terceiro dia de caminhada – gargalhada geral, quando uma delas justificou sua lentidão para comer, alegando que mastigava muito devagar.
A peregrina ao lado – não resistiu e emendou:
_ Devagar não!  Você não para de falar, como é que vai mastigar a comida?
Já na noite seguinte durante a sessão “tricotando pra valer”, que começa logo após o jantar e segue até a hora do nana nenê - a conversa girava em torno das viagens, filmes, cremes, hidratantes, shampoos&cia, vida familiar, questões domésticas e profissionais, além - claro das comprinhas vespertinas.
Shopping de lá, uma loja super legal de cá, mil dicas de novidades e lançamentos – quando uma delas grita e sobe na cadeira:
__ Uma BARATA!
Gritaria e tumulto geral – quase uma revolução.
Minutos depois ao se acalmarem, Ana Paula faz uma afirmação:
__ Detesto baratas e adoro carinhos.
E seguiu justificando:
_Detesto roupas BARATAS e adoro sapatos CARINHOS.
 
José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E-mail: palma@caminhodosol.org

 

São Paulo, sábado, 15 de outubro de 2011
 
 
Nossos passos no Passos
 
Poucos meses após sua posse, o Secretario de Turismo do Estado - Deputado Marcio França cumpriu o que prometera em seu discurso ao assumir o honroso cargo.
Com um trabalho dedicado e comprometido o Secretario e sua equipe, entregaram aos caminhantes a rota Passos dos Jesuítas – Anchieta, primeiro caminho contemplativo do programa Caminha São Paulo - seguindo sua orientação para que fosse um caminho peregrino – feito por peregrinos - para peregrinos.
Literalmente ambos – Secretário e peregrinos - conseguiram dar um passo significativo para divulgar e potencializar o ato de caminhar - permitindo assim, que um maior número de pessoas possam praticar caminhadas de longa distância convivendo com a natureza e vivenciando momentos de reflexão e introspecção.
Uma atitude corajosa e empreendedora de um homem público que soube inovar ao acreditar em um modelo que reinventa o ser humano, em sua permanente busca de uma nova versão de si mesmo – afinal, não nascemos prontos, segundo nos revela este incrível Mario Sergio Cortella.
O Brasil que em 2010 ocupou a oitava posição entre os 140 países que enviaram peregrinos ao Caminho de Santiago, demonstra que os caminhos contemplativos são uma forte ferramenta para desenvolver e alavancar o turismo, preencher a lacuna e o vazio da sazonalidade entre temporadas - criar novos postos de trabalho, propiciar a geração de renda, além de dar visibilidade a todos os municípios que integram estas rotas.
A alegria de saber que a empreitada que “largou” em 2002, quando idealizamos o Caminho do Sol desfraldando a bandeira da fraternidade, da amizade, da fé, da integração entre as pessoas e suas diferentes culturas, da proteção ao meio ambiente e do turismo, não era sinal de senilidade precoce, nem tão pouco plagiar o Caminho de Santiago criando no Brasil, uma versão de peregrinação tupiniquim.
Hoje o Caminho do Sol, construiu seu próprio caminho - tem personalidade própria, além de desfrutar de reconhecida reputação nacional e internacional.
O Instituto Caminho do Sol teve o privilégio de poder contribuir com seus passos no Passos – colaborando com sua experiência e seu spertize peregrino, carregando sua mochila e empunhando seu cajado.
Juntos, demos um grande e importante passo.
 
José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E-mail: palma@caminhodosol.org

 

 

 

São Paulo, sábado, 10 de setembro de 2011

 
 
A calmaria da calma
 
 
Um dos fortes aprendizados desta arte de caminhar caminhos, está em conviver com as diferenças e ter a oportunidade de crescer com as dificuldades.
Começando pelo começo, nossos caminhantes chegam à pousada inicial sempre à véspera do dia da saída.
Tem quem chega chegando, tem quem chega calado, tem quem chega alegre, tem quem chega desconfiado, tem quem chega descontraído, falante, tímido, calmo, afobado – enfim, tem para todos os gostos, formas e cores.
Nelson – que traz em suas veias o azul do mais puro sangue do clã “Nakamura” chegou com sua escolta familiar e pelo jeito de subir os poucos degraus que dão acesso a pousada, percebi que era uma pessoa extremamente calma e serena.
Pedro, que para subir os mesmo degraus, não fez da pressa sua companheira, de cara identificou-se com ele e foi o primeiro a levantar para recebê-lo com um forte, longo e demorado abraço peregrino.
O bate papo, a pizza – a conversa, o vinho – foram diluindo a ansiedade dos participantes. A descontração e a amizade foram então se apresentando e constituindo a nova família, que caminharia junto - porém separados – como dizia meu sábio avô – “cada um com seu cada qual”.
E assim, ao longo da jornada estes dois ilustres causídicos, entremeavam suas divagações filosóficas, com alguns calmos e lentos passos - metro a metro, dia a dia.
Eram os últimos a sair, os últimos a chegar, os últimos a comer, os últimos a tudo. E os primeiros a rir da tresloucada rotina que impomos à nossas vidas.
 
A magia de transformar minutos em horas rendeu uma das afirmativas mais curiosas que ouvi neste nosso café peregrino.
Diz um dos companheiros desta caminhada “slow motion”.
 
__Se um dia o Pedro e o Nelson, resolverem morrer “de repente”, irão demorar uns oito meses para morrer.
 
Se é assim... Viva a calma, viva a calmaria!
 
José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E-mail: palma@caminhodosol.org

 

 

São Pedro, sábado, 27de Agosto de 2.011
 
A culpa é nossa
 
Uma das minhas características pessoais, que vira e mexe me bota em alguma situação desconfortável é ser desbragadamente desorganizado e esquecido.
Mas, como temos que botar o universo a nosso favor, ela às vezes me traz algumas vantagens.
E as surpresas sempre acontecem - foi procurando uma coisa, que acabei encontrando outra.
Chafurdando meus armários em busca de uma Certidão, dei de cara com os manuscritos que antecederam meu 1º caderno de anotações – matéria prima essencial aos meus artigos quinzenais.
E olha que eu já tinha investido boa parte do meu tempo, garimpando cada centímetro de armário do meu cacíforo, em busca deste patrimônio pessoal.
Emoldurada em vermelho e verde, estava lá devidamente grifada uma das primeiras anotações – colhida logo no terceiro café peregrino – aquele mesmo das manhãs dominicais.
Parte desta engraçada estória – que estava em outro caderno - já contei para vocês.
Uma peregrina médica, engraçadíssima – utilizava muito o termo “convênio” em quase todas as suas frases.
Afirmava que tinha feito “convênio” com a alegria, com prosperidade e assim por diante.
Quando errava ou algo não dava certo, afirmava categoricamente, que “não tinha feito convênio” com a tristeza, com a doença, com o sofrimento e por aí afora – e aí sistematicamente colocava a culpa em alguém.
Assim, a cada passo e a cada dia, surgiam muitos culpados por seus desatinos.
A quem reclamasse, ela dizia de forma peremptória e com seu forte sotaque nordestino:
__Eu não errei, o erro foi seu - e ao final, posso até te explicar.
Sucederam-se os erros, os quilômetros, os dias, as muitas brincadeiras e risadas.
Já em nosso café, todos cobram a esperada explicação da Dra.
Caprichando no gostoso sotaque, contou de seus muitos anos de terapia, até que resolveu dar alta à psicóloga e adotou um critério interessante e brincalhão, para racionalizar suas questões de culpa.
Toma um gole de café, escala a autoridade que o diploma lhe confere e lá do alto - dá um gostoso sorriso e diz:
__A culpa é minha e eu a coloco em quem eu quiser.
Pois é meu caro leitor - nós aqui, com tantos pruridos - viu como é fácil?
 
José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E-mail: palma@caminhodosol.org

 

 

 

 

 
Uma vergonha envergonhada
 
O Caminho da vida nos ensina a estar sempre atentos – cada passo pode significar um novo aprendizado.
Além de momentos alegres e felizes, todos nós temos nossos ciclos de angústia, de insegurança, de dor, de incertezas, de medo, etc.
Sentimentos que chegam sem pedir licença – simplesmente entram e se instalam, como se a casa fosse sua.
Se formos condescendentes, eles se acomodam de tal forma que para desinstalá-los será necessário muito mais que uma simples ação de despejo.
Ufa! Como é difícil carregar o mundo.
Paro no farol vermelho - lá estava o Juscelino - deficiente físico, meu velho conhecido de muitos anos de prosa de farol.
Ao ver-me, colocou nos lábios um alegre e rasgado sorriso - apoiado em sua muleta e caminhando com sua pseudo prótese, foi logo falando:
__Que cara é esta?
Vamos animar! Vamos animar! A vida é para ser vivida com alegria, temos que ter fé e acreditar.
Não deixe a tristeza entrar, confie em Deus!
Com um aperto de mãos, engoli seco e sem graça - sorri um sorriso amarelo.
O semáforo abriu - segui ruminando a vergonha que senti e a certeza do quanto sou pequeno.
Eu – dono de uma saúde perfeita, a bordo um carro do ano, com filhos saudáveis e uma netinha que acabou de me elevar à categoria de avô.
Minha atividade me permite viver de forma bastante confortável.
Eu senhor absoluto de meus defeitos e manias – estava sendo consolado por uma pessoa extremamente humilde, que dignamente escala as dificuldades de seu dia a dia, poupando as doações que recebe no farol de uma avenida.
Alegre, prossegue caminhando entre os carros, desenhando uma esquisita coreografia com a prótese que conquistou após anos de espera na longa e árida fila da vida.
Obrigado, grande Juscelino.
Valeu a lição - prometo crescer!
 
José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E-mail: palma@caminhodosol.org
 

 

 

 

São Pedro, sábado, 16 de julho de 2011

 
 
O bandeirante e o passarinho
 
 
Estamos cansados de saber, que neste caminhodemeudeus, sempre temos um gozador de plantão.
No Caminho do Sol, pobre daquele que tem ouvidos para ouvir.
Desde a pousada em Santana de Parnaíba, com histórias de uma história real, bonita e bem contada, que nos remete aos assentos escolares de nossa adolescência, onde ouvíamos as não raras cansativas aulas de História do Brasil - que agora nos atraem e nos fascinam não só pela riqueza de detalhes, mas pela forma eloqüente com que o hospitaleiro e historiador Emanuel se expressa - como se tivesse participado e testemunhado tudinho - ao vivo e em branco e preto.
Mesmo assim neguinho encontra brecha para uma gozação.
__Caracas Emanuel!  quer dizer que entre os anos de 1.629 e 1.633 em pleno século XVI, nosso valente Raposo Tavares foi à Guairá, Itatins e Tapes, nas regiões Missioneiras e trouxe aprisionados 30.000 índios e os chamava pelo nome?
Pois é – alguns iniciam assim o Caminho do Sol, com passos tímidos e perguntas atrevidas - uma sinergia que ao longo de onze dias irá se transformar em uma grande e rara amizade.
Já em Itu, no Armazém do Limoeiro é a vez do “seu Fininho” contador de causos – caboclo de veia sertaneja, com graça especial e criatividade sem fim.
“Seu Fininho” prossegue emendando um caso noutro - fã de Nho Bento – poeta paulista - criador e proprietário absoluto de um farto e divertido repertório de causos.
Nossos peregrinos apertam a tecla SAP e vão traduzindo o caipirês – sentem e respiram o forte aroma do cigarro de palha balangando no beiço do “seu Fininho” e acham graça, na graça do sorriso recheado com dentes que já se foram.
O caboclo “os causo” vai contando, da viola “os acorde” vai tirando e os peregrinos de alegria delirando...
__U cabocu intusiasmadu cum u canarinhu qui num parava di cantá, pregunta ao cumpadi.
__ Quantu qué neli?
__ $50,00 mirréis, cumpadi – i tá baratu!
__Muitu dinheiru cumpadi - i naqueli otru, quétinhu qui tá ali?
__Aqueli lá é $200,00 mirréis, cumpadi.
__Ô cumpadi, num intindi – esti qui num para de cantá ucê pédi $50,00 e nu otru que num dá um piu, ucê qué $200,00?
__Pois é cumpadi, u amarelinhu é cantadô, mais cuntéci qui u otru – quietinhu qui tá li– qui num dá um piu, vali muitu mais – casu di que eli é u compôsito!
Em alto e bom som, nosso peregrino grita para o dono do armazém:
__ Ô “seu” Clemente, meu frango a passarinho é o cantadô ou é o quétinhu?
 
José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E-mail: palma@caminhodosol.org

 

LEIA OUTROS ARTIGOS PUBLICADOS ACESSANDO AS PASTAS ABAIXO

 

 

 

São Pedro, sábado, 13 de Agosto de 2011
 
Parabéns a você
 
Os anos são poucos, mas os motivos para comemorar são muitos.
Assim o Caminho do Sol, completou seu nono aniversário.
Durante o mês de julho, precisamente no dia 25 - dando início a um novo ciclo - ele vigorosamente assoprou as nove velinhas que inauguraram sua nova idade.
Uma etapa que certamente, trará muitos e bons motivos para sorrir.
Coincidindo com o aniversário de Águas de São Pedro e dia consagrado ao Apóstolo São Tiago – hoje Padroeiro da cidade - trocamos a festa festada, pela festa interior – aquela que nos permite momentos de reflexão e introspecção.
Substituímos os eventos e as cerimônias públicas por momentos de recolhimento.
Uma conversa com Deus.
Assim pudemos agradecer pelo que temos recebido e principalmente o que Ele tem nos permitido realizar pelo próximo.
Pedimos ao Apostolo Tiago, que nos dê lucidez para  avaliar nosso trabalho com clareza e isenção de propósitos.
Aperfeiçoar e manter o que está dando certo e corrigir o que ainda não está perfeito.
Ao longo destes nove anos, foram escritas muitas páginas de uma história inusitada, que teve a participação efetiva de alguns milhares de atores.
Neste momento, concentramos toda nossa energia na concretização de importantes projetos.
Estarão sendo elevados a categoria de realidade, os seguintes devaneios:
Construção do “marco zero” do Caminho do Sol, em Santana de Parnaíba.
Construção do maior terço do mundo, localizado no morro do Vuturuna, em Pirapora do Bom Jesus.
A participação do Caminho do Sol, no Museu das Peregrinações, localizado no povoado espanhol de Molina Seca - bem em meio ao Caminho de Santiago - que também se encontra em processo de “irmanamento” com a cidade de Águas de São Pedro, criando assim mais uma forte alavanca turística para nossa Estância.
Graças ao esforço e brilhante atuação de nosso voluntariado, em especial a dedicação do amigo Artur Motta - na área cultural - com a publicação no Diário Oficial do Estado no dia 16 de junho p\p aprovamos o projeto “Música de Qualidade”, que realizará sessenta apresentações nos municípios que integram a rota do Caminho do Sol.
Na quietude de nosso recolhimento, muitos foram os agradecimentos, inclusive àqueles – razão maior de nossa existência - que tem deixado suas marcas de amor, ao longo deste solo abençoado.
Obrigado, voluntários, anjos, hospitaleiros e peregrinos do Caminho do Sol!
 
José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E-mail: palma@caminhodosol.org

 

São Pedro, sábado, 30 de julho de 2011

 

José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E-mail: palma@caminhodosol.org

 

José Palma
Idealizador do Caminho do Sol

e-mail: palma@caminhodosol.org

 

São Pedro, sábado, 11 de fevereiro de 2012
 
Um Banco de energia
 
Quem conhece a Casa de Santiago – local onde termina o Caminho do Sol - localizada dentro do Mini Horto em Águas de São Pedro – já “sacou” um pouco desta fantástica energia.
Um altar natural – verdadeiro caixa forte de Amor e de Fé!
Quantas emoções emocionantes e quanto choro chorado, nas inúmeras chegadas destes fantásticos peregrinos.
Depoimentos de quem viveu esta experiência e traz consigo as marcas de um caminho caminhado - ainda mascando os aprendizados da longa estrada.
Palavras quem vem do coração e olhares embrulhados em lágrimas traduzem as contradições de valores e conceitos que se desconstruíram ao longo da jornada.
Quente - o corpo reflete as dores da alma que ainda não saiu em busca das cicatrizes.
O coração pulsa feliz – porque o sorriso no peito é o combustível desta criatura que acaba de nascer.
Quantos turistas e visitantes choram junto – alcançados por este tsunami do bem.
Quanta emoção vivida, por quem entrou lá sem saber o “que” e o “por que”.
Quanta alegria repartida - desencontros que se encontram consigo mesmo, com o outro e com Deus.
Como é bom respirar esta energia, este ar peregrino, este cheiro de mato, este perfume de flor florida.
Uma turista pede para abraçar a peregrina, ela recua e diz:
__Cuidado! estou “bem suada”.
A turista dá um passo em sua direção, ergue o braço esquerdo para buscar o abraço e sorrindo responde:
__Não... você está “abençoada”!
Casa de Santiago – verdadeiro Banco de energia.
Uma Casa da Moeda – ali – diàriamente emite-se amor e fé em larga escala.
Venha e “saque” você mesmo – na hora – é de graça!
Águas de São Pedro – reconhecida pelas suas fontes de águas medicinais que curam a matéria, agora tem também a fonte que cura a alma.
 
José Palma
Idealizador do Caminho do Sol

E-mail: palma@caminhodosol.org

 

 

 

Idealizador do Caminho do Sol

E-mail: palma@caminhodosol.org

 

José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E-mail: palma@caminhodosol.org

 

São Pedro, sábado, 19 de janeiro de 2013
 
O fim do infinito
 
Aqueles que em São Paulo, desceram do bonde na Praça das Bandeiras, fizeram corso na Avenida 9 de Julho (você sabe o que é corso?), que foram aos cines Paissandu ou Marabá, para assistir 20.000 Léguas Submarinas, ou a Noviça Rebelde, que no distante ano de 1957 acompanharam a cadela russa laika, tomar assento a bordo do Sputnik e literalmente ir para o espaço, que anos depois assistiram pela TV - em branco e preto - Neil Armstrong dar os primeiros passos na Lua - já viveram esta ansiedade e passaram por esta curiosa experiência.
O mundo vai acabar...
Tenho muito viva a lembrança da 1ª vez, que vivi a expectativa e o medo de ver o mundo acabar – afinal, a 1ª vez que o mundo acaba - a gente nunca esquece.
Esta turma que viveu a realidade ai de cima, deve lembrar também dos Bancos desta época, como o Banco Irmãos Guimarães, Banco Commercio e Indústria, Banco da lavoura de Minas Gerais, Banco Novo Mundo e outros mais, que a memória e o espaço não me permitem escrever.
Pois bem, tínhamos recém mudado para o tradicional, festivo e festeiro bairro da Bela Vista, o antigo e inocente “Bixiga” - estávamos jantando quando saiu a conversa sobre o anunciado fim do mundo, que ocorreria dias depois.
Meu pai terminou de tomar seu gaspacho (uma sopa espanhola feita com vegetais picados, pão e alho), virou para minha mãe e falou com toda a calma que descansava acima de seu bigode:
__Já tomei todas as providências para enfrentar o fim dos dias. Hoje encerrei minha conta no Banco Irmãos Guimarães e abri uma outra conta no Banco Novo Mundo.
E desde lá continuo firme e forte caminhando por estes caminhos enquanto o sol brilhar e a chuva chover.
Cá pra nós, o mundo está acabando e renascendo a cada dia – todo dia.
Acaba nas agressões ao meio ambiente – aliás - falamos meio ambiente, porque já acabamos com a outra metade, acaba asfixiado pelo egoísmo e pela ganância do capitalismo selvagem, acaba no Oriente Médio em meio a uma Guerra dita, “Santa” - que mata em nome de Deus, acaba embriagado nos volantes irresponsáveis, que matam vidas de inocentes, que cruzam seus caminhos.
Renasce na fé de homens e mulheres como Chico Xavier e Madre Tereza de Calcutá, na missão de homens como Ghandi e na luta de líderes, como Martin Luther King e Nelson Mandela, renasce na sabedoria de cientistas como Albert Sabin, Louis Kunker - que descobriu a célula tronco - renasce na genialidade de Albert Einstein, Thomas Edson, Steve Jobs e muitos, muitos, muitos outros.
 
José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E-mail: palma@caminhodosol.org
 

 

São Pedro, sábado, 16 de março de 2013
 
Quando vencer é vem ser
Sem sombra de duvida o medo do desconhecido causa uma extrema ansiedade e uma baita insegurança.
Dez, entre dez novos peregrinos, sente este friozinho na barriga quando vai chegando a hora de vestir a mochila, calçar o calçado e botar o pé na estrada.
A todos digo que este sentimento é absolutamente normal – também passei por este momento – e nele reside um dos importantes aprendizados de um Caminho Contemplativo.
Sim, prezado leitor – a princípio você pode achar isto esquisito, mas ser peregrino é um “ser”  esquisito por si só.
Já dissemos aqui e é do saber geral - os efeitos e conseqüências do poder da mente.
Com certeza você já ouviu que: a mente mente.
E mente muito.
Desde o 1º passo, ela emite mensagens alertando-nos que, não chegaremos até o final, que não daremos conta do recado e por aí a fora. Pensamentos que podem tornar-se uma forte ferramenta para alavancar a dúvida, suscitando um receio que pode torcer o cajado, dar dor de dente, aparecer uma espinha na ponta do nariz, sentir dor de barriga e vai por aí afora, na tentativa de colocar o desânimo dentro de nossa mochila.
Nesta hora, o caminho nos mostra o quanto somos capazes de atingir nossos objetivos e o quanto desconhecemos esta nossa força.
Ele nos ensina que tanto no caminho, como em nossas vidas - temos duas opções: vencer ou fracassar.
Mais que uma característica do ser humano, é uma condição para sobreviver, para crescer, para evoluir, para melhorar o nível de conforto e buscar a auto realização.
Temos e precisamos vencer – sempre!
O peregrino coloca uma das mãos em meu ombro, olha dentro dos meus olhos e pensando alto - disse que entendeu a mensagem que o Caminho lhe passou.
Muito mais que vencer as barreiras e dificuldades, percebeu a sutil diferença entre vencer e vem ser.
Conta que desde seu 1º passo o Caminho lhe disse:
__Vem ser... mais forte.
__Vem ser... mais determinado.
__Vem ser... vitorioso!
 
José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E-mail: palma@caminhodosol.org

 

São Pedro, sábado, 16 de março de 2013

 

Quando vencer é vem ser

Sem sombra de duvida o medo do desconhecido causa uma extrema ansiedade e uma baita insegurança.

Dez, entre dez novos peregrinos, sente este friozinho na barriga quando vai chegando a hora de vestir a mochila, calçar o calçado e botar o pé na estrada.

A todos digo que este sentimento é absolutamente normal – também passei por este momento – e nele reside um dos importantes aprendizados de um Caminho Contemplativo.

Sim, prezado leitor – a princípio você pode achar isto esquisito, mas ser peregrino é um “ser”  esquisito por si só.

Já dissemos aqui e é do saber geral - os efeitos e conseqüências do poder da mente.

Com certeza você já ouviu que: a mente mente.

E mente muito.

Desde o 1º passo, ela emite mensagens alertando-nos que, não chegaremos até o final, que não daremos conta do recado e por aí a fora. Pensamentos que podem tornar-se uma forte ferramenta para alavancar a dúvida, suscitando um receio que pode torcer o cajado, dar dor de dente, aparecer uma espinha na ponta do nariz, sentir dor de barriga e vai por aí afora, na tentativa de colocar o desânimo dentro de nossa mochila.

Nesta hora, o caminho nos mostra o quanto somos capazes de atingir nossos objetivos e o quanto desconhecemos esta nossa força.

Ele nos ensina que tanto no caminho, como em nossas vidas - temos duas opções: vencer ou fracassar.

Mais que uma característica do ser humano, é uma condição para sobreviver, para crescer, para evoluir, para melhorar o nível de conforto e buscar a auto realização.

Temos e precisamos vencer – sempre!

O peregrino coloca uma das mãos em meu ombro, olha dentro dos meus olhos e pensando alto - disse que entendeu a mensagem que o Caminho lhe passou.

Muito mais que vencer as barreiras e dificuldades, percebeu a sutil diferença entre vencer e vem ser.

Conta que desde seu 1º passo o Caminho lhe disse:

__Vem ser... mais forte.

__Vem ser... mais determinado.

__Vem ser... vitorioso!

 

José Palma

Idealizador do Caminho do Sol

E-mail: palma@caminhodosol.org

 

 

 

 

São Pedro, sábado, 13 de abril de 2013

 

Sorrir ou desviar

Entre um passo e outro ele me diz que caminhar nos permite escarafunchar os meandros de um passado que já passou.

Ressuscitar reminiscências cavocando pedaços de uma memória analógica que insiste em esquecer que deve se lembrar de não esquecer.

Uma memória que acumula décadas de atividade - vinte e quatro horas por dia registrando fatos, nomes, alegrias, tristezas, filmes, amores e desamores é tênue como a nuvem - muda de forma e dilui enquanto a vida vive.

Segundo seu neurologista - temos que fazer uma coisa de cada vez concentrando-se cuidadosamente em cada ação.

__Hum! Como assim - e minha imaginação, meus sonhos, meus devaneios - o que faço com eles enquanto executo outras coisas?

Não consigo viver sem sonhar, sem fazer planos e vê-los efetivamente realizados: pé no chão e cabeça na lua.

De devaneio em devaneio sigo transformando os meus sonhos de estado gasoso em sólido.

Firme e convicto, continua:

__Entre os valores e crenças que acredito, estão o amor, o comprometimento, a ética, a qualidade e o profissionalismo. Atitudes que tenho tomado ao longo do meu caminho.

Foi numa destas que, conversando com um conhecido em pleno centro da cidade, ele conta que topou com uma pessoa, que fez questão de parar para cumprimentá-lo.

E o fez com um efusivo abraço e um largo sorriso no peito.

Mencionou com detalhes, uma compra que fez e o deixou constrangido de tantos elogios ao relacionar os benefícios que teve.

Quando se despediu, a pessoa que o acompanhava disse:

__Poxa, que legal este reconhecimento!

Com uma ponta de orgulho, disse ao seu interlocutor:

__Meu caro, se estiver comigo e alguém fizer questão de vir me cumprimentar - saiba que esta pessoa comprou algo de mim.

Porém, se ela atravessar a rua ou me evitar - saiba que ela me vendeu alguma coisa.

__Venha! Vamos caminhar.

 

José Palma

Idealizador do Caminho do Sol

E-mail: palma@caminhodosol.org

 

 

Vida, magia e espaguete

 

Curvas que parecem retas, retas que não terminam e subidas que sobem, acomodam-se nesta perfeita colcha de retalhos costurada passo a passo.

Já dissemos e escrevemos que ter a coragem de abandonar as couraças que nos protegem - deixar o conforto de nosso lar e enveredar pelos caminhos do mundo é uma decisão para quem não sabe bem, quantos parafusos faltam na cabeça.

Sem dúvida, uma experiência que nos impõem muitos aprendizados.

A alternância de expectativas, a perda da privacidade, a mudança da rotina, experenciar o despojamento material, conviver com as diferenças, aprender a comer jiló ou lasanha de bolacha, formam um script quase insuperável.

Somos submetidos a situações que jamais imaginaríamos passar. Acontecimentos inesperados e surpresas fantásticas, com as mais variadas e diversas intensidades.

Pode ser uma bolha que resolve nos visitar, ou a aparição de um curioso e colorido tucano.

Pode ser uma crise de choro, ou uma sanfona bem tocada - de alguém que - literalmente estava “sentado à beira do caminho”.

Pode ser a visão contemplativa da mansidão e imensidão de um lago, ou a manifestação de nervosos trovões anunciando que a tempestade chegou.

Pode ser o mistério de uma mandala celta, ou o chuveiro que queima durante o banho.

Pode ser a magia de um jardim japonês, ou a certeza errada, do que virá depois da curva.

Pode ser tudo, mas pode não ser nada.

Sempre me despertaram curiosidade os filmes de Federico Fellini – mezzo pazzo & mezzo mozarela – que adorava transformar o simples em bizarro.

Ao definir a vida - Fellini também definiu o que é o caminho.

__ “A vida é uma combinação de magia e espaguete”

Faça uma mágica – venha caminhar e... Bon Apetit!

Que tal, uma caminhada “al dente”?

 

José Palma

Idealizador do Caminho do Sol

E-mail: palma@caminhodosol.org

 

Se andasse com a mesma facilidade com que fala seria um verdadeiro papa léguas e seguramente já teria dado a volta ao mundo.
Desde sua chegada à pousada inicial, destampou a falar e a enumerar suas proezas.
Suas expressões faciais, as inconsistências de suas afirmativas e as dúvidas sobre a veracidade de suas aventuras esfriaram os ânimos do grupo e da pizza que estava em seu prato.
Falou tanto, que mal conseguiu dar uma garfada na fatia de atum, que ao final serviu de rega bofe para “mimi” e sua trupe – uma gata malhada - matriarca de uma animada ninhada de seis gatinhos.
Eram tantas e estapafúrdias as suas bravatas, que não tardou vir o sono bater à porta.
Sorrateiro, instalou-se no inconsciente de cada ouvinte.
Seguiram-se os dias, sempre um após o outro e fartamente recheados com causos mirabolantes – afinal – para falar, basta abrir a boca.
Repetidas vezes, de tão compenetrado, nem se deu conta que era ouvinte de si mesmo – discursava para um público que não havia comparecido.
Acho até que uma vez chegou a babar de tanto que exarcebou...
Falou de caminhadas fantásticas em lugares desconhecidos, cheio de gente que ninguém conhece.
O Caminho nos pega de surpresa – o aprendizado, não se anuncia - é sorrateiro e acorda tarde!
Faz escorrer um sangue preto e invisível – o DNA da verdade!
Faltando dois dias para o final, um dos peregrinos interrompeu sua fala, olhou firme para ele e disse:
__Falar é muito fácil, papagaio também fala!
Calou definitivamente e não abriu mais a boca até chegar à Casa de Santiago.
Assim é o Caminho...assim chegam os aprendizados!
 
 
José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E-mail: palma@caminhodosol.org
 

 

 

 

São Pedro, sábado, 14 de Dezembro de 2013
 
Como nascemos
 
Uma das sensações que temos ao caminhar, é que de uma certa forma - o caminho nos remete à morte.
Vamos ao caminho desprovidos de nossos bens materiais, pois só podemos carregar o que cabe em nossa mochila.
Ou seja: o essencial, o básico e necessário para podermos sobreviver.
Sem couraças para nos proteger temos a oportunidade de caminhar só com a nossa essência.
Nossos bens materiais - casa, carros, jóias, títulos, status e ornamentos não poderão nos acompanhar.
Como de fato ficarão, quando definitivamente partirmos para nossa última peregrinação.
Se quisermos que nos acompanhe um de nossos bens certamente não poderemos levá-lo, será somente uma última vontade de nossa vaidade terrena.
Então começamos a perceber e entender o tamanho de nossa insignificância e pequenez diante da magnitude do Universo, dos segredos da vida e dos mistérios da morte.
De forma antagônica, ao final temos também a clara sensação que renascemos.
Parece que à medida que caminhamos vamos enterrando aquela criatura, para passos adiante ir configurando a arquitetura de um novo ser.
O peregrino compara sua experiência ao pensamento deste fantástico filósofo e professor Mario Sergio Cortella, ao afirmar que:
”Não nascemos prontos, ao contrário – nascemos não prontos e vamos nos fazendo a cada dia.
O caminho mostra-nos esta mutação de forma muito clara e consistente.
Venha se fazer, este Caminho é uma verdadeira usina transformadora.
 
José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E-mail: palma@caminhodosol.org
 

 

 

São Pedro, sábado, 30 de novembro de 2014

 
 
Cercas do infinito
 
Uma caminhada dura.
Calor forte – sol a pino.
Mochila pesada – pés doloridos.
Camisa encharcada pelo suor, pele queimada e lábios ressecados.
No rosto a barba por fazer – pela frente os kilometros – muitos kilometros e uma forte determinação para superá-los.
Para trás os passos dados e a certeza de ter chegado até aqui.
À esquerda uma cerca e a visão quase 360º que o caminho – manhoso – imprime em pedras duras de pisar e um ar empoeirado - difícil de respirar.
Olha ao longe o Monte anunciado como “Branco” admira-se com sua beleza e imponência.
Preocupa-se com a distância.
Entre eles, o perto - longe.
Entre eles, o querer de cada um.
Entre eles, o olhar inseguro de quem vai e o coração escancarado de quem espera.
Entre eles, o conhecido e o desconhecido.
Entre eles, o desafio e a tenacidade.
Foi até a cerca – tirou sua mochila – sentiu a camisa molhada - com as costas das mãos enxugou o suor, esfregou os olhos, tirou o boné e presenteou-se com curtos goles de uma água quente e deliciosa.
Ouve sua respiração, percebe o pulsar de seu coração – levanta o arame, joga a mochila do outro lado, abaixa-se, ameaça passar uma das pernas – para e assim permanece por meio segundo.
Tempo suficiente para demoradamente fitar o além - em sua mente registros e lembranças de um passado que ainda não passou e visões de um futuro presente – ali e agora!
Com firmeza recua – decide não avançar, apanha a mochila e retoma seu caminho.
O caminho é para ser caminhado – passo a passo – para frente, sem fronteiras, sem limites – sem medos.
Enfrentá-lo e superá-lo – esta é a missão, este é o objetivo – este é o aprendizado que veio buscar.
Digeri-lo de forma lenta e gradual interpretando suas mensagens e fazendo a leitura de seus ensinamentos.
Percebe que mais que superar e vencer as cercas do caminho é capaz de superar e vencer as cercas do infinito.
Que tal não cortar caminho evitando pular as cercas de nossa vida?
Afinal – o infinito é logo ali.
 
José Palma
Idealizador do Caminho do Sol
E-mail: palma@caminhodosol.org

 




Segundo semestre 2010
Primeiro semestre 2011

DEPOIMENTOS DE CAMINHANTES

.....

E que a benção da chuva suave e boa seja contigo.

Que ela tombe sobre tua alma para que todas as pequenas flores

possam surgir e derramar suavidade na brisa.

Que a benção das grandes chuvas seja contigo,caindo em sua alma

 para lavá-la bem lavada nela deixando muitas poças reluzentes,

onde o azul do céu possa brilhar e às vezes uma estrela.

1203 - Rosa Maria Cezar

 

O que é o Caminho ? Resumindo ... é um abraço multifacetado , mais forte, mais carinhoso, de mãe, de filho, amoroso, dependendo da situação.
Nos mostra que há algo que não se explica, que está aí permanentemente , basta estarmos atentos e com o coração aberto.

1170 - Vivian Rapp Nölting

» Leia os depoimentos completos

 

DEPOIMENTOS DE CICLISTAS

“AGRADECIMENTO ESPECIAL

Ramón, meu caro, você é o cara. Um dia te dei minha mão para guiar teus passos inseguros, próprios da criança que começa a andar. Caminhamos juntos, por muito tempo, você amparado por minha fragil, mas segura mão. Eu sempre à frente, você a um passo atrás. Os anos foram passando, você ganhou autonomia no seu andar seguro, inteligente, confiante e vitorioso.Fomos companheiros de rir, chorar, mijar juntos. Creio que nesta experiência que tivemos (Caminho do Sol) , em nada aumentou esse companheirismo. Em nada aumentou a reciprocidade de nossos sentimentos. Não se acrescenta algo a aquilo que é pleno, total, imensurável, infinito. Apenas, eu seu pai, tive a oportunidade de ter sua mão segura e carinhosa, a guiar o meu caminhar, nesta empreitada. Foi sua vez de guiar meus passos,( no caso, pedaladas) cansados e trôpegos pelos quase 80 anos (não espalha...). Mas VOCÊ, foi mais sábio, diria anda, mais respeitoso. Nunca passou à minha frente... Nunca fez prevalecer seu físico jovem e priviligiado, na dianteira do caminho. Sempre na retaguarda, atento, vigilante, cuidadoso. Amigo, obrigado. Paro por aqui, antes que uma lágrima denucncie minha emoção.Beijão no seu coração. Papai."

Celen Orives
469 - Celen Orives
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